Relacionamentos

Dia dos Namorados: as mulheres no seu lugar

Aproxima-se o Dia dos Namorados e pipocam aqui e ali as reportagens de sempre (aliás, o que seria de nós, pobres jornalistas, sem as datas comemorativas e as efemérides?) E, de novo, matérias de TV mostram mulheres a beira de um ataque histérico, buscando maridos de forma alucinada, topando tudo para isso.
De chantagear uma peça de gesso inanimada com a forma de um santo barbudo, colocando-a no freezer, a jogar papelzinhos com o nome de preferidos em uma bacia d’água e ir atrás da bolinha molhada que abrir primeiro.
Raramente um homem é entrevistado nessas coberturas, mesmo sendo a repórter e a produtora uma mulher. E, mesmo se fosse, talvez as perguntas conduzissem para um momento de negação diante do medo de ser discriminado, tratado como “mulherzinha”, pelos outros machos idiotas da matilha.
Ano após ano, utilizamos essa data para reafirmar coletivamente que a busca por encontrar uma pessoa a fim de dividir momentos é característica dos que nasceram com duplo X. Ela, a fraca, precisa de companhia. Ele, o forte, cede aos encantos dela (desde o Jardim do Éden…) e desce de seu pedestal de inocência e auto-suficiência quase como um favor. Ou, pior, para resgatá-la. Mas quem precisa ser salvo? De que?
Por mais que saibamos que, na vida real, as coisas não são assim, consumimos isso bovinamente. O que causa um impacto para o imaginário coletivo que está além da nossa compreensão. No final das contas, alimentamos a idéia de que se casar e formar casa é um desejo eminentemente feminino. Enquanto, os homens se dedicam a coisas mais importantes. Como destruir o planeta.
Esse tipo de matéria, feita muitas vezes sem pensar, vinda na toada dos anos passados, ou – como queiram – na trilha da tradição (ô palavra mal-di-ta!), tem o mesmo DNA da maioria das propagandas de TV que vendem produtos de limpeza, panelas de pressão e ferros de passar. Servem para colocam a mulher no seu devido lugar – limpando, cozinhando, lavando, secando. E deprimindo-se.
Infelizmente, a conscientização das mulheres a respeito de seu lugar no mundo e de sua exploração é lento, também por conta desses processos midiáticos que, às vezes de forma involuntária, às vezes não, reproduzem modelos que já estão caindo de velhos. Seja pela mensagem que pregam, seja pelo mal que fazem. Pois quando elas não agem da forma como esperamos que devam agir, ou da forma que nos foi informado que devam agir, surgem formas veladas ou abertas de violência.
Pode parecer besteira falar de gênero e de direitos e deveres iguais no Dia dos Namorados, mas seria uma reflexão interessante imaginar por que buscamos outra pessoa. E se, com isso, queremos crescer juntos, pelo tempo que durar, ou estamos atrás de alguém que resolva o que eu não consigo resolver sozinho. Não é uma reflexão fácil, falo por experiência própria, mas necessária. Ou, ainda, quantas vezes tentamos jogar a responsabilidade da relação sobre os ombros da mulher – afinal de contas, é ela quem deve garantir que as coisas dêem certo, é ela quem cuida do ninho, não?
Aproveito a data comercial-comemorativa para agradecer às mulheres fortes que compartilharam suas vidas comigo. Graças a elas, creio que me tornei um pouco menos machista do que a nossa sociedade gostaria que eu fosse.

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