04. Propriedade de todos menos de nós mesmas

04.11.2011

Por Ligiane de Meira

Ontem, dia de finados, resolvi não fazer nada durante o dia e assistir TV. Passando pelos canais, parei em um que começou um filme sobre mulheres na família, mais especificamente sobre mulheres negras, chamado Reunião de Família.

No filme a personagem central Madea tenta unir a família e encaminhar as mulheres de sua família e uma se destacou em especial, a neta de Madea que apanhava do noivo, nem marido ainda era e em uma cena ela conta para a mãe e revela que apanha dele desde sempre, desde quando eles começaram a namorar. A mãe ao invés de apoiar a filha e tira-la da relação, fala que a filha precisa parar de irritá-lo e aceitar sua condição, já que ele a sustenta, pode lhe dar uma boa vida, em favor do conforto. Mas o ponto central para mim não foi tanto o discurso da mãe, mas sim o discurso do noivo.

O noivo ao ser interrogado pela mãe – que comentava que ela voltaria se caso ele prometesse não encostar mais a mão nela –, em sua fala ele comenta que é um “colecionador de coisas bonitas” e que como bancava a mulher tinha direito sobre ela. Esse discurso bateu em minha cabeça e mostrou exatamente o que muitas mulheres sofrem em relação a muitos homens: tratar mulheres como objeto. Até mesmo arrisco em dizer que não só os homens, mas toda a sociedade.

No discurso que o noivo colocou a companheira como propriedade, principalmente pelo fato de estar bancando a mulher e isso é a realidade de muitas mulheres. Homens que pensam dessa maneira não se importam com o bem estar da sua parceira, o que realmente importa é se estão dispostas sempre ao seu lado, fazendo de conta que a vida ao lado dele está ótima, mas quando faz alguma coisa que não o agrada, ele a espanca, agindo covardemente, pois a força de um homem não se compara com a da mulher.

Quando a mulher espancada contou a sua irmã o que acontecia, ela ficou transtornada e chamou a única mulher que poderia ajudar, Madea, porém a moça implorou a sua irmã que não contasse que era ela que apanhava. Assim, contou a sua avó que era uma amiga dela. Madea aconselhando as duas que precisava fazer um cozido bem quentinho, jogar no agressor e depois utilizar uma frigideira de um peso considerável no agressor, também o agredindo. Mas teve mais um comentário de Madea que chamou muito a atenção: não adianta nada querermos ajudar uma mulher que não quer ser ajudada.

Isso me lembrou de muitas mulheres que conheci, que apanhavam do marido, que eu enlouquecia quando eu sabia, e elas tinham o apoio da família, indicando que não era apenas a questão econômica que coloca a mulher como objeto, muitas vezes é ela mesma que aceita essa situação, achando que está correto e que é ela que faz as coisas erradas para o companheiro, tendo o direito de corrigir com agressão os desvios da sua mulher.

Todos os dias nós mulheres somos bombardeadas com discursos que colocam que a mulher deve sempre satisfazer o homem. Deve ser correta na frente dos outros, uma ótima dona de casa e uma excelente profissional do sexo na intimidade. Se não tivermos todas essas qualidades não somos mulheres de verdade, culpando nós mesmas por não conseguir alcançar esses quesitos.

Temos todas essas questões nos tiram a qualidade de ativa e nos colocam como passivas nas relações, afinal só somos felizes se satisfazemos os homens.

Eu consegui reverter isso com muita leitura e discussões feministas, mas então me pergunto: e as mulheres que vivem nessa situação até hoje? Infelizmente são muitas, começando pelo meu circulo social e acredito que esse quadro só pode mudar se mais mulheres participarem das discussões feministas e sabendo que são donas de si, de seus corpos, das suas opiniões.

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2 respostas para 04. Propriedade de todos menos de nós mesmas

  1. Muito bom!!!

    Só gostaria de fazer um pequeno adendo quanto à passagem em que você fala que “a força de um homem não se compara com a da mulher.”: creio que o que configura a “covardia” num ato de violência que parte de um homem para uma mulher está muito mais atrelado ao capital simbólico associado à condição masculina do que à força física. Em termos de explosão e resistência muscular, inclusive, as mulheres são ligeiramente mais fortes, como por exemplo quando analisamos a potência das contrações uterinas do parto, ou mesmo as da menstruação (que não raro nos aparecem apenas como simples cólicas). Entretanto, somos criadas com base em um discurso que associa à condição feminina atributos como fragilidade e baixa resistência física, ouvindo reiterações por parte de mamãe, vovó, titia e etc que “meninas são mais fracas”, o que faz com que essa nossa força física acabe atingindo um estado de latência. Portanto, quando um homem agride uma mulher não é simplesmente “a força” que configura o ato de covardia (inclusive, já presenciei casos de mulheres que reagiram, e os companheirões se deram muuuuito mal), mas o fato de que somos educadas à fragilidade e a dificuldade em romper com isso.

    No mais, excelente artigo, e é muito bom contar com a ajuda de vcs!!

    • Ligiane disse:

      pensarei sobre isso Bárbara, mas na questão de aguentar dor somos mais resistentes mesmo, com total certeza, porém quando se lembra sobre queda de braço no caso, um exemplo, já foi comprovado que o homem possui mais força mesmo.
      e a questão de que realmente somos direcionadas para sermos menores, isso sem dúvida.
      agradeço muito a participação.

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