08. Velho Companheiro

30.05.2011
Por Edmilson Lacerda

Reza a lenda que Garrincha, um dos maiores jogadores de todos os tempos, estava em Estocolmo com a seleção brasileira disputando a copa do mundo da Suécia. O ano era 1958. Entre um jogo e outro aproveitou para dar uma volta pelas ruas da cidade. Voltou com um rádio transistorizado pelo qual pagara 180 coroas suecas. Logo, Américo, massagista da seleção, aproximou-se de Garrincha, pegou o rádio nas mãos, observou bem e disparou:

– Garrincha, o que você vai fazer com este rádio no Brasil? Ele só fala sueco e você não entende nada desta língua.

O jogador ficou desolado e entendeu que realmente o rádio não lhe valeria para nada, e vendeu-o ali mesmo para o massagista pela metade do preço.

Esta história é uma das muitas pérolas contadas a respeito deste grande jogador. Mas o que mais chama a atenção é o equipamento que Garrincha comprou para trazer ao Brasil: um rádio.

O rádio surgiu por estas bandas por volta de 1920. A programação inicialmente visava atingir a um público elitizado, os afortunados que possuíam condições de adquirir o equipamento. Mas uma década depois ele já era popular.

Nos anos 40, o veículo atingiu o seu ápice, e foi na chamada “época de ouro” das transmissões radiofônicas que desenvolveram comerciais, programas de jornalismo, esportes e radionovelas famosas. O Ibope surgiu neste rico contexto.

 Através do rádio, times cariocas e paulistas de futebol estenderam seus limites e angariam milhões de fãs, e até hoje em várias cidades do interior em todo território nacional há torcedores do Flamengo, Vasco e Santos, por exemplo. Isto se devia ao fato da programação esportiva originar-se no Rio e em São Paulo.  

Uma das recordações mais fortes que tenho da minha infância na década de 70 é de observar meu avô logo cedo em sua casa em Porto Alegre ligar e sintonizar aquele rádio gigante para escutar o noticiário e suas músicas preferidas. Conheci antigos cantores populares como Gildo de Freitas e Teixeirinha por intermédio de meu avô. E quando ele ia a algum lugar, não se separava jamais de seu radinho portátil.

 Este padrão certamente era recorrente em outras famílias. E eu, um menino imberbe ainda deslumbrado com as coisas do mundo, ficava meio intrigado com aquele aparelho, imaginando como aquelas vozes se pareceriam em carne e osso.

Os anos passaram e a velocidade das transformações tecnológicas foi simplesmente avassaladora. Imagem, informação via satélite e interatividade. O rádio ficou meio que perdido no meio de uma avalanche de novidades, que começou com a televisão e hoje em dia proliferam-se ipods, mp4, iphones, gps, etc.

Os executivos de rádio não tiveram e não tem vida fácil. Precisam pensar em coisas a fazer para continuar atraindo ouvintes e em como não sucumbir frente às novas tecnologias. Pensar diferente, buscar alternativas, aproveitar ao máximo o que o veículo tem para oferecer, planejar cuidadosamente a grade e segmentar, visando cativar públicos distintos.

Desta forma passou a oferecer serviços de utilidade pública e divertimento. Hoje nas grandes cidades é comum o pessoal dirigir seus carros na hora do rush ligados a alguma emissora que informe as condições de tráfego. Há também verdadeiros achados culturais e informativos em programas matinais e os programas de humor, com uma linguagem mais descolada e ágil, são também armas poderosas que ajudam a popularizar o rádio para as novas gerações.

Este personagem quase centenário da nossa cultura, sem sombra de dúvidas está em plena forma e ainda tem fôlego para muito mais. Além disto, ainda é para mim um estímulo a aguçar o imaginário, sem que eu precise comprar a programação e tampouco receber o boleto no final do mês. É generoso e igualitário, disponibilizado a todos sem restrições.

E ainda hoje, ao ligar o rádio pela manhã em meu carro, certa nostalgia me atinge e sorrio ao recordar aquele português de bigode fino em seu pijama e camiseta Hering branca preparando-se para se barbear na garagem, carregando o seu portátil com ele.

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