22. Princesinha Parabólica tatuada

05.09.2011

por Edmilson Lacerda

Minha filha fez uma tatuagem. Ela me ligou uma bela manhã e disparou:

– Oi pai, hoje vou fazer uma tatuagem.

Foi lá e fez. Sem crítica, sem reprimenda, sem culpa. Fiquei a pensar nesta coisa de pais e filhos, e de nossa relação. Lembrei imediatamente do meu pai e refiz a cena na cabeça:

– Uma tatuagem? Quem autorizou? Vai lá e pega o dinheiro de volta. Nada de tatuagem. Se aparecer aqui com esta porcaria te meto no xilindró. Coisa de vagabundo! Viu mulher? Fica dando moleza pra estes guris e olha só o que acontece? Tatuagem. Vai ver só a tatuagem que meu cinto vai fazer no teu lombo.

Sorri ante a este pensamento, até com uma pitada de nostalgia.

Naquela época eu não entendia nada do que se passava na cabeça dos meus pais, e o que eles faziam para proteger seus rebentos dos infortúnios da vida. Os pais, se pudessem, criavam um mundo paralelo, perfeito, isento de sofrimento, para que seus filhos tivessem uma passagem pela vida sem máculas, sem tristeza. Só alegria e felicidade.

Meu pai, no caso hipotético da tatuagem, talvez houvesse de querer me proteger de uma sociedade preconceituosa e que via algo de marginal na pessoa tatuada. Aliás, o processo de marginalização da tatuagem começou quando o governo britânico passou a identificar seus presos com tatuagens, isto lá pelo final do século XIX.

Ao tatuar o corpo, a pessoa ainda é identificada e rotulada, e se a tatuagem for visível, tanto pior. Muito difícil encontrar um executivo de uma grande empresa com uma tatuagem aparecendo no pescoço ou nos braços. As empresas mais modernas, de segmentos inovadores e certas profissões talvez tenham menos restrições, mas o fato é que ao tatuar-se você está limitando sua área de atuação profissional. Cruel? Ultrapassado? Talvez sim, but welcome to the jungle! C’est la vie!

E é exatamente isto que os pais querem evitar: um estreitamento de pista nas estradas da vida de seus rebentos. E o problema não é o fato de ser contra, de dizer um sonoro e definitivo “não” aos seus filhos. O problema é que muitos deles não têm competência ou preparo para explicar os porquês. A sensação que dá a criança ou adolescente é que aqueles dois que deveriam amá-lo e apóia-lo só estão lá para barrar suas experiências. Ficar um final de semana fora com a turma? Não! Um dinheiro para comprar um celular novo? Não! Emprestar o carro para dar umas voltas com os amigos? Nem pensar!

Alguém já disse que só se aprende a ser filho quando se é pai. É a pura verdade!

Não me arrependo de nenhuma das vezes que tive que dizer um não a minha filha. E em todos os momentos tentei explicar de forma bem objetiva o que me fazia optar pela negativa, e eu precisava ser assim, porque ela fazia juz ao apelido de Princesinha Parabólica, querendo saber de tudo sempre. Se ela ficava brava comigo depois destes esforços de comunicação e de zelo pela sua integridade física, era algo que ela teria que resolver sozinha. Faz parte do processo de crescimento.

Voltando a tatuagem, tudo bem! Ficou bonitinha, não compromete sua imagem, não é algo agressivo e não atrapalhará sua carreira. Quando ela me comunicou sabia que assim seria. Já passamos das fases dos porquês, ela já não precisa do meu freio paterno, a fase adolescente do tudo posso ficou pra trás.

Sou mais um coach, um tutor babão que dá uns pitacos aqui e acolá e que tenta ainda prever o caminho mais pavimentado e seguro para a sua vida, mesmo tendo absoluta certeza que ela é estradeira, off road, e adora estradas novas e desconhecidas. Como dizem os antigos: “A maçã nunca cai longe da macieira.”. Por quem será que esta menina puxou?

Anúncios

Uma resposta para 22. Princesinha Parabólica tatuada

  1. Thayssa disse:

    a respeito do parte em que diz “Ao tatuar o corpo, a pessoa ainda é identificada e rotulada, e se a tatuagem for visível, tanto pior. Muito difícil encontrar um executivo de uma grande empresa com uma tatuagem aparecendo no pescoço ou nos braços.” humm..não sei, as vezes acho que esse negócio de não poder ter tatuagens visíveis para poder entrar em grandes empresas é pensamento de brasileiro ou se encaixa para empresas de origem asiática que são mais tradicionalistas…mas ainda não tenho um pensamento formado sobre isso.
    Eu tenho tatuagens e quero fazer mais, mas a primeira coisa que penso é de não fazer em lugares que possa prejudicar minha carreira profissional (sim quero ser uma grande executiva!)…
    Viajando para o Canadá a primeira diferenca que vi foi a equipe de bordo bem diferente das do Brasil. Um deles tinha o braco “fechado” de tatuagens…fiquei um bom tempo pensando por que aquele rapaz havia sido admitido numa empresa que tem como regras sempre estar ‘impecável’ e passar a melhor imagem aos seus tripulantes…acredito que no Brasil jamaaaais uma pessoa seria contratada por uma TAM da vida se tivesse tatuagem dos pés a cabeca…
    Aqui no Canadá, em muitos lugares me deparei com pessoas cheias de piercings e tatuagens…como numa sorveteria, a menina lida com criancas, com o público, com a sua imagem para atender o cliente, mas o dono dessa loja não viu nenhum problema em admití-la.
    Talvez isso seja a geracão Y contratando seus empregados…
    Como eu disse, ainda nao tenho uma opinião formada sobre este assunto…só quis deixar meu comentário e vou pensar mais a respeito…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s