16. O hijab e a Marcha das Vadias: Coincidências

25.07.2011

por Edmilson Lacerda

No final do ano passado estive com minha namorada em Istambul para participar de uma maratona. Ficamos hospedados num hotel da parte velha da cidade, perto dos pontos turísticos e do local da largada da prova. Todas as manhãs nós despertávamos com a chamada para a reza dos muçulmanos, que acontece cinco vezes ao dia. O megafone dispara algo mais ou menos assim: “Alá é o único deus e Maomé é seu profeta”.

Após o café da manhã e antes de explorar a cidade, lia o Today’s Zaman, uma edição em inglês de um jornal turco. Nestas leituras matutinas um tema me chamou a atenção: uma garota fora impedida de realizar uma prova e expulsa da sala de aula de uma universidade porque estava usando o hijab, o véu islâmico que recobre a cabeça. Achei o fato insólito, porque apesar da Turquia ser um país tolerante em se tratando de religião, quase 90% da população é muçulmana, e dois terços das mulheres usam o hijab. Após rápida pesquisa descobri que em 1923, quando Ataturk, o “pai dos turcos” decretou a república, declarou que a Turquia tinha que avançar e mudar suas leis, inclusive adotando a forma de vestir ocidental. Ataturk, que era um iluminista, acreditava que a utilização do véu era uma prática que afastava o país da modernidade. Em seu governo aboliu a burka, a poligamia e concedeu direito a voto as mulheres.

Com o passar dos anos surgiu uma nova geração de muçulmanas que vestiam seus hijabs coloridos, como forma de manifestação de individualidade, e ansiavam por estudar e trabalhar. Eram completamente diferentes das mulheres do passado, que aceitavam sua condição de submissão. Esta nova geração de certa forma afrontou os homens com sua ânsia por independência.

Então, em 1981 foi decretada uma lei que proibia o uso do hijab pelas mulheres ocupantes de cargos públicos. Recentemente o véu passou a ser proibido também nas escolas e universidades. A polêmica se instaurou. Um olhar menos atento a esta questão e poderemos deduzir que se trata de um avanço em prol da liberdade de credo. Mas o fato é que a proibição à utilização da veste é uma arremetida contra os direitos das mulheres. Uma colunista chamada Fatma Zibak escreveu no Today’s Zaman que a proibição fere os direitos da mulher de freqüentar uma universidade e de ter emprego e renda própria, pois os fundamentalistas não permitem que as mulheres de sua família saiam sem o hijab, Se elas não podem utilizar o véu na escola, então elas devem ficar em casa.

A garota que foi expulsa da sala de aula, é um símbolo da resistência. Ela não quer deixar a universidade, e se tirar o véu for uma condição para estudar, ela terá que abandonar o seu sonho.

Sorte é que vivemos no Brasil, com nossa influência católica e liberdade de credo, e estamos distantes destes problemas de ordem religiosa, desta opressão masculina. Isto só acontece para aqueles lados longínquos do planeta.

Mas eis que surge a Marcha das Vadias. O que seria isto? Um bando de prostitutas lutando por melhores condições de trabalho? Não. Trata-se de um movimento iniciado no Canadá, onde um homem responsável pela segurança estava fazendo uma palestra na Universidade de Toronto, e em tom didático pediu que as mulheres deixassem de se vestir como vadias como medida para evitar o estupro.

Pegou mal, porque ele culpou indiretamente as mulheres pela violência que sofrem, porque “provocam” os homens com suas roupas insinuantes. Foi o estopim de uma revolta de proporções internacionais, que foi intitulada lá fora de Slut Walk e por aqui ficou conhecida como Marcha das Vadias.

Calma lá! Antes de se indignarem com as autoridades turcas ou com o tal canadense, lembrem do caso Geisy Arruda, estudante que foi expulsa de uma universidade aqui no Brasil porque estava vestida de mini-saia e provocou a ira de boa parte dos estudantes que quase a lincharam. E entre os exaltados que praguejavam contra ela estavam homens e mulheres. Recordem também que a opinião pública se dividiu e muita gente inteligente defendeu a atitude da instituição.

O irônico destas situações relatadas é que com véu ou sem véu, tirando ou não tirando a roupa, a mulher é sempre culpada. E sempre paga um preço alto pela “culpa”. E estranhamente muitas mulheres engrossam as fileiras dos preconceituosos que ajudam no veredicto. Vá entender…

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