07. Maria Madalena é pop

23.05.2011  

por Edmilson Lacerda

 

Há um ditado bastante popular que diz: “religião, política e futebol não se discutem”. Então, quero desde já esclarecer que este texto não tem o rigor de um trabalho cientifico, e tampouco pretende ferir as crenças religiosas de quem quer que seja. Trata-se apenas de uma abordagem diferente para uma temática antiga, muito antiga.

A história de Cristo todo mundo conhece de cor e salteado. O Novo Testamento está repleto de detalhes sobre a passagem deste que foi o mais importante messias de todos os tempos. Mas o que poucos sabem é que muitos relatos da Bíblia que são creditados a vida de Jesus  representam uma colagem de antigos mitos pagãos e de seus deuses, que por séculos fizeram a cabeça de egípcios, gregos e romanos.

O precursor foi um deus egípcio chamado Hórus (3.000 a.C). Ele nasceu em 25 de dezembro, parido da virgem Isis. O seu nascimento foi acompanhado por uma estrela do leste, com direito a três reis seguindo o sinal vindo do céu. Aos trinta anos foi batizado, saindo em peregrinação com 12 discípulos, realizando diversos milagres. Foi traído, crucificado e ressuscitou.

Outro exemplo? Mitra, deus pagão muito popular. Ele reinou como favorito entre os romanos até o Imperador Constantino impor a religião cristã como oficial por decreto em 325 d.C. O seu nascimento era celebrado em 25 de dezembro. Cumpre informar que este deus nasceu também de uma virgem e sua vida tem muitas passagens semelhantes com as atribuídas a Jesus. Constantino, imperador romano cristão, sabiamente transformou a data em celebração cristã, uma decisão deveras conveniente.

A propósito mitra é o nome dado até os dias atuais para a cobertura de cabeça de bispos e até do Santo Papa.  Coincidência ou apenas justa homenagem?

O culto a Mitra era um privilégio reservado apenas aos homens. O cristianismo, portanto, representou um avanço, porque as mulheres podiam participar das pregações. Mas foi de fato um avanço? Talvez sim, provavelmente não.

Por que todos os deuses pagãos relevantes eram homens, nascidos de virgens requisitadas diretamente por um deus maior que desejava uma existência terrena? O que isto representa de fato? Qual é o recado por trás destas crenças e mitos? Há um continuísmo nos ensinamentos e nas crenças cristãs? Penso que sim. Os pilares do catolicismo estão fortemente escorados em tudo que o precedeu. Foi por isto que ele foi digerido mais facilmente pelo povo, e o que justifica o motivo de personagens bíblicos femininos demorarem muito para ter uma posição de destaque. A própria mãe de Jesus só foi ter um dia em sua homenagem a partir do século IV. E mesmo assim alguns imperadores não gostavam de ouvir os cristãos a intitulando de “Maria Mãe de Deus”.

Maria Madalena por sua vez é uma dos personagens mais intrigantes nesta história, a que provoca mais dúvidas. Pouco se fala sobre esta mulher nas primeiras escrituras, e nem de onde concluíram que se tratava de uma prostituta. Ela estava lá ao lado do mestre, presenciou suas pregações, acompanhou sua crucificação e morte, foi uma das primeiras a vê-lo reencarnado.  Mas ela é pouco mencionada e valorizada. Por quê?

Provavelmente devido ao caráter conservador dos autores dos livros do novo testamento. Lembrem que eles pertenciam a uma sociedade extremamente machista e patriarcal.

Hipótese atualmente aceita é que Maria Madalena foi atraída pelos ensinamentos de Cristo, e passou a seguir o grupo. Há estudos que retratam uma mulher de posses, e que contribuiu financeiramente pela causa. Diz-se que ela era muito ativa e debatia de igual para igual com todos, fazendo perguntas muito pertinentes a Jesus. Extrapolando um pouco se pode inclusive aventar outra hipótese, desta feita mais ousada, de que ela era esposa de Jesus, e que tiveram filhos. E que após a Crucificação fugiu para a França, levando com ela o cálice da última ceia, o Santo Graal. O cálice, aliás, que remete a simbologia de mulher fecunda. O segredo da localização da Maria Madalena e da prole de Cristo estaria sob a guarda de cavaleiros templários, que supostamente protegem a linhagem do Salvador até os dias atuais.

Isto explica o fato deste personagem bíblico ter despertado súbito interesse nos dias atuais. A história dela é mais verossímil para a nossa cultura.

Refletindo sobre estas coisas, percebo que a religião avança e acompanha os rumos e as transformações sociais. Para continuar atraindo novos fiéis, não necessariamente se muda uma história, mas lança-se um holofote para um personagem ou personagens que tem maior empatia com a sociedade em determinado momento. Isto explica a recente ascensão de Maria Madalena, e explica também porque na Grécia antiga, berço da filosofia e da democracia, o panteão era habitado por deuses e deusas. Os gregos transmitiam valores e conhecimentos através da analogia com aqueles deuses com características humanas, e era natural que numa sociedade mais liberal a imagem de deusas fosse permitida e cultuada.

Este tema é controverso, provoca discussões apaixonadas e apaixonantes, que no frigir dos ovos só é resolvido pela fé, ficando em lados antagônicos crentes e descrentes. É claro que até a fé pode ser um valor questionado. A igreja católica praticou barbaridades em muitos momentos da história em nome dela. Talvez em outro momento possamos falar sobre isto também.

Uma resposta para 07. Maria Madalena é pop

  1. Lucas Molinari disse:

    A história de Cristo foi alterada baseada nos interesses da época. Muito do que sabemos hoje é meramente invenção. Por exemplo: A virgem Maria. Todos nós sabemos que é impossível se ter um filho sem a junção de um homem e uma mulher. Essa ideia dela ser virgem é para que realmente Jesus seja considerado filho de Deus e não de Maria e José.
    O problema das igrejas é a interpretação bíblica. A bíblia foi escrita por homens, inserido em um contexto histórico, e nela esta contida a palavra de Deus e não que tudo seja a palavra de Deus.
    Não podemos dizer amém a tudo, a maioria das igrejas são fundamentalistas e espalham o conservadorismo.

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