26. Conspiração

03.10.2011

por Edmilson Lacerda

Ninguém sabe ao certo de onde ele veio. Alguns disseram que ele estava hospedado no Hotel Del Rey e que era militar. Outros falaram que era um professor universitário aposentado de Ponta Grossa. O fato é que o homem causou rebuliço na Boca Maldita por estes dias.

Era uma manhã fria de sábado em Curitiba e alguns grupos já se formavam na calçada quando o tal apareceu. Paletó bem cortado, daqueles ainda remanescentes de uma tradição de bons alfaiates da cidade, chapéu de lã, sapatos pretos bem engraxados. Não era alto, mas sua magreza e postura impecável lhe davam certo destaque. No rosto as marcas do tempo, sobrancelhas grossas e nariz volumoso.

– Precisamos tirar esta mulher de lá. Disparou a queima-roupa.

Um dos confrades, que a principio não percebera a aproximação, tremeu um pouco mais do que o normal a mão que segurava a xícara.

– Tirar quem de onde?

– Esta tal Dilma. Precisa sair de lá.

O grupo ficou imediatamente intrigado. Naquele momento estavam a deliberar sobre as falcatruas do Derosso, que é o atual Presidente da Câmara Municipal da cidade.

Barreto demonstrou uma leve irritação pela intromissão, mas como sempre fazia, abriu espaço para o forasteiro.

– Se aproxime nobre colega. Fale mais a respeito deste seu desejo. Quais os motivos que você tem para tal proposição?

– Quem eu sou e meus motivos só divulgo para a autoridade máxima deste lugar. Ouvi falar que aqui existe uma confraria muito antiga, e que assuntos importantes são trazidos à baila.

A notícia rapidamente se espalhou. Em pouco tempo a Boca Maldita estava em polvorosa. Barreto chamou os freqüentadores mais antigos do lugar e iniciou uma acalorada conversa próximo ao obelisco. Tudo agora era uma questão de saber quem era afinal o líder. Mas após certo tempo não havia consenso. Adamastor já fumara quatro dos seus Hilton e Hélinho não conseguia disfarçar sua ânsia pelo poder.

A coisa ameaçava ficar preta, e a tão admirada capacidade de argumentação daqueles anciões tinha simplesmente desaparecido. Estavam se xingando, esbravejando e tirando todos os “podres” guardados por décadas.

Não é a toa que dizem que para conhecer um homem verdadeiramente só lhe dando plenos poderes. A Rua XV estava prestes a explodir…

– Eleição! Faremos uma eleição! Era mais uma vez o Barreto contemporizando.

Euforia.

– O voto será secreto? Gritou alguém.

– Quem são os candidatos? Questionou outro.

Passara-se mais de quatro horas desde a chegada do homem desconhecido e nada de uma conclusão sobre a votação. Agora o assunto principal em todas as rodinhas era quem seria o eleito e quais seriam as suas atribuições. Muitos cafés e cigarros foram consumidos nesta elocubração geral.

Não houve consenso. O assunto foi automaticamente transferido para os dias seguintes. Até que alguém se deu conta de que o forasteiro havia sumido sem deixar nome nem telefone.

O mistério permanece.

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2 respostas para 26. Conspiração

  1. João Candido disse:

    Creio que sei quem é o forasteiro. A descrição detalhada, as preferências no trajar e hospedar, a postura política… me dão quase a plena certeza de que é quem eu penso. Sim, é ele. Cidadão pontagrossense, mas não militar. Magro, de porte altivo, não muito alto mas com presença… deve ser ele, sim. O conheci jovem, o pai desembargador, o avô fazendeiro, a mãe devota de Santa Rita. Costumava passear no centro de Ponta Grossa, aos sábados, montado no seu vistoso baio, arreios de prata, bota com sola taqueada de palitos feita sob encomenda no Polaco. O inseparável 38 no coldre, devidamente revisado pelo Alemãozinho, um Schmidt&Wesson que havia comprado do Joaquim alguns anos antes. Ultimamente fazia isso: vir para Curitiba pela Princesa e ficar hospedado no Del Rey. Depois que a Lurdinha o deixou viúvo, os finais de semana em Ponta Grossa ficaram muito melancólicos. Com a morte da companheira, sentiu-se livre para expressar sua revolta contra a intromissão das mulheres em todos os assuntos de homem. Até na política, vejam só! Agora, já tenho certeza de quem é o cidadão, só não lembro o nome…

  2. Edmilson disse:

    John, teu relato sem dúvida irá contribuir para a investigação que o Adamastor está encabeçando, já que a familia dele é de Carambeí e tem ramificações por toda a região dos Campos Gerais, inclusive em Ponta Grossa. Nomes como Polaco, Alemãozinho e Joaquim serão uma bom ponto de partida, além de uma ida ao cemitério central da cidade em busca de informações sobre esta Lurdinha.
    Um grande abraço!

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