09. Teorias

06.06.2011

por Edmilson Lacerda

Era extremamente atraente para mim a ideia de conceber o mundo como uma grande espaçonave onde todos os seres vivos viajavam através do tempo e do espaço. Esta visão foi muito influenciada pela leitura sistemática de contos de ficção científica na minha adolescência.

Nesta perspectiva juvenil eu entendia que dentro desta espaçonave os recursos eram limitados e deveriam ser consumidos com parcimônia, evitando-se a todo custo o esbanjamento, visto que a penalidade para o desperdício seria a inviabilidade de se continuar viajando e a consequente extinção de toda a tripulação.  

 Havia, entretanto, um grande dilema inserido nesta teoria. Eu colocara todos os outros seres deste planeta em pé de igualdade conosco, na condição de tripulantes. Se esta premissa fosse aceita, o mundo passaria por uma grande mudança. O homem não poderia mais apropriar-se dos mares, dos continentes e do céu a seu bel prazer, como se fosse a última bolachinha do pacote. Haveria de se ter um governo que pensasse sob a ótica de todas as espécies, e a complexidade seria grande, exigindo uma mudança radical das regras, para que todas as formas de vida tivessem seus direitos preservados.

Seria o fim da hegemonia do homem sobre todas as coisas. Finalmente ursos panda, golfinhos, cangurus e outros espécimes adoráveis teriam seu merecido lugar ao sol. Perfeito! Já estava quase convencido a escrever um livro sobre o tema e defender meu ponto de vista em praça pública, até que uma janela menos iluminada deste futuro feriu minhas convicções: Não poderia mais comer um bom galeto ao primo canto ou pastel de camarão. Casaco de lã para aquecer no inverno nem pensar, e um delicioso patê de fígado poderia ser crime inafiançável.

Imaginar crocodilos tomando sol na Praia de Bombinhas, além de ter que controlar o instinto para não pisar numa barata e ouvir aquele barulhinho bom de esmagamento era por demais aterrorizador e foi a gota d’água para que eu abandonasse esta hipótese.

O tempo passou, e minha visão atual do universo tende para uma abordagem mais orgânica. Entendo que cada planeta é um ser vivo em busca da racionalidade e do autoconhecimento. Como no antigo conto de Carlo Collodi, em que um boneco de madeira chamado Pinóquio anseia em se tornar um menino, os planetas também buscam esta humanização.

Isto me conforta, porque voltei a pertencer à raça dominante. Afinal, se os planetas querem se humanizar, é porque somos seres superiores e invejáveis, a ponto de sermos referência. E ganhamos novamente um salvo conduto para praticar nossas excentricidades por estas bandas do cosmos.

Mas se a Terra é um ser vivo, e dentro dela há centenas de milhões de pessoas, um pensamento incômodo me atormenta as ideias: O que somos afinal? Parasitas dentro das suas entranhas a consumir tudo que ela possui de recursos naturais? E se a Terra conseguir entender o que se passa em seu interior, será que não inventará um jeito de nos eliminar para voltar a ser saudável? Os desastres naturais que vêm acontecendo já não seriam então uma tentativa de nos extinguir?

Por este prisma, cai por terra o negócio de raça superior. Se quisermos nos manter por aqui crescendo e nos multiplicando, teremos que mudar e passar a cumprir uma função diferenciada. Ao invés de consumir irrestritamente recursos naturais, será de bom tom reciclar materiais, reflorestar o planeta, buscar soluções limpas de fontes de energia e ter um respeito extremo pelo meio ambiente. Desta forma seremos definidos como inofensivos e deixados em paz pela hospedeira Terra.

O fato é que independente do jeito como encaramos esta odisséia humana, não escaparemos da tarefa de preservar e também de respeitar todos os seres vivos.

Então todos os que trabalham direta ou indiretamente com tarefas relacionadas à preservação do planeta e das espécies animais e vegetais estão contribuindo para nossa permanência neste mundo. Se não fosse pelos catadores de material reciclável, biólogos, engenheiros ambientais, ecólogos, dentre outros, certamente nosso ciclo dentro deste sistema orgânico estaria em risco.

Agradeço de coração a toda esta gente e me comprometo a fazer minha parte no processo de preservação do ecossistema. Sei que sou tacanho e minhas atitudes ainda são individualistas e focadas num consumo irresponsável, mas vou melhorar. É uma questão de vida ou morte.

Só não me peçam para deixar de queimar carvão e de fazer um bom churrasco, porque serei obrigado a abandonar esta segunda teoria e encontrar uma terceira que me seja mais conveniente.


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