37. Exemplos de vida

19.12.2011

por Edmilson Lacerda

Estava em um hotel após um longo dia de trabalho na quarta-feira e me permiti pensar um pouco sobre o tema do blog desta semana, já que a Giulia tinha entrevistado a Mirella Prosdócimo, que ficou tetraplégica aos 17 anos após sofrer um acidente automobilístico.

Lembrei de Feliz Ano Velho, livro de Marcelo Rubens Paiva. Ele ficou paraplégico após bater de cabeça no fundo de um lago. Por ser uma história verídica, escrita pelo próprio acidentado, acabou mexendo muito comigo, pois foi a primeira vez que parei para pensar a respeito de limitações físicas. A narrativa era tão detalhada e tão real que eu podia sentir na pele os problemas que ele enfrentara após o acidente e passei a ter mais cuidado ao mergulhar de cabeça no mar ou em piscinas.

E não podia deixar de pensar também que no ano passado o filho de um colega caiu do skate e acabou sofrendo traumatismo cerebral, resultando em um estado de dependência total, visto que ele não se locomove, não enxerga e tampouco fala. Ele tem agora 20 anos e a luta dele por muitos meses foi para viver.

Estas coisas vinham na minha cabeça e eu buscava uma conexão, um link que pudesse ser o ponto de partida do meu texto. Peguei o controle da TV e passei a zapear freneticamente pelos canais. Detive-me num canal de esportes que casualmente contava a história de Octaviano, mais conhecido como Taiu, surfista brasileiro considerado um dos grandes big riders dos anos 80. Big rider é um termo em inglês para designar surfista de ondas grandes. Taiu é tetraplégico desde 1991, quando se acidentou surfando no litoral norte paulista.

A reportagem tinha por objetivo filmá-lo surfando numa prancha adaptada. Passara-se 20 anos desde o acidente, sua última “caída” tinha sido há um ano, e ele estava ansioso. É claro que ele iria de passageiro na prancha, porque um surfista teria que remar por ele, mas o que ele disse foi surpreendente e fez todo o sentido pra mim, porque era isto que eu procurava: “Os caras estão levando minha alma pra surfar”.

É claro! Sempre que assisto a vídeos com imagens de superação, sempre que ouço histórias de limitações físicas superadas, impressiono-me com a força de vontade destas pessoas especiais e não deixo de sentir certa vergonha por fraquejar frente a problemas infinitamente menores.

Algumas pessoas passam por traumas em suas vidas que acabam por lhes tirar um grande patrimônio que é o corpo. Não sendo mais senhores de seus movimentos, impossibilitados de ir e vir sem ajuda e nos casos mais graves sem mexer nada do pescoço para baixo, o que lhes resta? A alma. E se eles ainda têm a capacidade de pensar e de sonhar, certamente a vida ainda lhes pertence e existem sim possibilidades.

Mirella, Marcelo e Taiu são exemplos de grande força de vontade. Não se resignaram a sua situação, mas buscam adaptar o mundo a suas necessidades. E a força do seu querer é tão intensa, que por intermédio deles muitos em igual situação acabam se beneficiando.

Esta mensagem de otimismo e de vontade de viver que precisamos enaltecer e buscar sempre na nossa vida. Finalizo com uma frase da Mirella sobre o que a deixa emocionada.

“Pequenas coisas do nosso dia-a-dia, que muitas vezes passam despercebidas pela maioria das pessoas, como a beleza de um pôr-do-sol ou de uma noite iluminada pela lua.”

3 respostas para 37. Exemplos de vida

  1. João Candido disse:

    Esse pessoal é f*d*, mesmo!!!

  2. Cassiana disse:

    Somos realmente muito maiores do que nosso físico. O corpo é sempre um limite. O interessante é que quanto mais limitados somos fisicamente, especialmente por uma situação traumática, maiores nos tornamos ou nos revelamos essencialmente.

  3. Edmilson disse:

    É verdade Cassiana!
    Um exemplo muito claro disto é a história contada por Jean-Dominique no livro “O escafandro e a borboleta”. Portador de uma doença rara que o deixou completamente paralisado, conseguindo só mexer o olho esquero, ele teve forças ainda para “ditar” o livro por meio de um sistema de códigos adaptado a seu único movimento possível: piscadas do olho esquerdo. Ele estava aprisionado a um escafandro, mas não deixou de ser, pelo menos em sua mente, uma borboleta.
    A tragédia que atinge certas pessoas e o processo de auto-conhecimento que advém da dor, revolta, negação e aquela vontade de acabar com tudo em determinados momentos, os faz mais fortes. Como disse a Mirella os maus momentos surgem, só que ela procura enxergar a beleza nas pequenas coisas e viver uma vida normal, apesar da sua limitação fisica.
    Um belo exemplo de vida!
    Beijos!
    Edmilson

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