36. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte

12.12.2011

por Edmilson Lacerda

Lá vou eu viajar pelos mares às vezes turbulentos da minha infância e juventude. Tento fugir a tentação de escrever sobre este período, mas fazer o quê se o tema da semana remete imediatamente a recordações e mais recordações. É como se houvesse um conselheiro no meu cérebro dizendo constantemente: “Escreve sobre aquilo, escreve sobre aquilo…”.

Vou confessar uma coisa para vocês: É muito fácil escrever sobre o passado, porque as vivências de um determinado período das nossas vidas representam quem somos hoje. Quando lembro e escrevo estou de certa forma fechando um ciclo. Esmiuçando e entendendo o meu passado e principalmente colocando isto em palavras consigo evoluir, dar um passo adiante. Acho que é a forma que encontrei de fazer terapia de graça.

O tema desta semana é comida, então retrocedo para meus anos infantis.

Comer na minha infância era uma mistura de tensão e prazer. Família grande, minha mãe se virava como podia para atender a todos. Ela sentava à frente dos cinco filhos com uma panela cheia de arroz, feijão, macarrão e ovo, tudo misturado. Às vezes havia frango ou linguiça cortada. Oferecia uma colherada para cada um dos filhos até não sobrar nada na panela. A tensão vinha por conta da constante vigilância de todos na ordem das colheradas e na quantidade de comida em cada uma das porções. Não era raro alguém protestar: “Mãe, tu colocou mais pra ele!” ou “Não é a vez dele de comer mãe!”.

Alguns anos depois já morávamos num grande condomínio de apartamentos na zona norte de Porto Alegre. Era próximo ao clube de campo do SESC e no verão costumávamos frequentar a piscina do clube. Eu e o Márcio, meu irmão mais novo, éramos inseparáveis neste tempo. Ao voltar da piscina passávamos no supermercado e comprávamos um pão de meio quilo, queijo e mortadela. Pão de meio quilo era muito comum naquele período. Era exatamente como o pão francês, que chamávamos de cacetinho, só que bem maior e pesava meio quilo. Chegávamos em casa, abríamos aquele pão gigante, colocávamos margarina, fatias de queijo e mortadela e cortávamos exatamente na metade, para que cada um comesse sua parte idêntica. Acredito que usávamos até uma régua quando pairava dúvida quanto à divisão.

Aprendi a cozinhar sem perceber. Como eu ficava a espreita da minha mãe na cozinha, sempre esperando dar umas colheradas na panela quase vazia, seja de comida ou de massa de bolo crua antes que fosse para a pia, sem querer eu acompanhava quase todo o processo, seja do corte da carne ou do frango, a forma que ela descascava batatas e outros legumes, o cozimento da massa e muitas outras coisas.

Valendo-se daquele interesse, minha mãe juntava todos os filhos na cozinha anualmente, numa espécie de linha de produção para fazer todos os canudinhos, risólis, pastéis, tortas frias e os negrinhos e branquinhos da festa de aniversário de minhas irmãs gêmeas. Até a festa de quinze anos delas 100% da produção de doces e salgados era da minha mãe e de seus auxiliares, ou seja, eu e meus irmãos. Passávamos semanas esticando, cortando e enrolando massa em forminhas de metal para que minha mãe pudesse fritar. Colocávamos aqueles canudinhos todos empilhados dentro de grandes tupperwares. Os docinhos tinham que ficar todos no mesmo tamanho, senão a Dona Gilca condenava a produção. O controle de qualidade era impecável.

Era um tempo bacana, um tempo feliz. Aquele tempo serviu para me despertar o interesse pelos segredos da cozinha e desde então eu tenho sido um aprendiz interessado. Não importa se farei um churrasco ou um estrogonofe, lasanha ou um sanduíche, o que busco na comida é sempre diversão e arte. Ainda hoje ao preparar uma refeição é como se aquele menino que ficava esperando a sobra da panela para dar umas colheradas estivesse presente, maravilhado com o cheiro e com a quantidade de opções e combinações que podemos fazer com os alimentos.

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3 respostas para 36. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte

  1. João disse:

    Posso aqui testemunhar que a aprendizagem foi excelente! Da lazanha quase pecaminosa ao churrasco impecável nos temperos, no ponto e na apresentação, voce trouxe o seu perfeccionismo também para esta área da sua vida. Aí voce deixa transparecer todo o prazer que encontra nesta atividade que transforma em arte. Nós todos, superalimentados, agradecemos!

    Permito-me acrescentar um glossário para os não-gauchos:
    cacetinho: pão frances
    negrinho: brigadeiro
    branquinho: brigadeiro branco (óbvio)

  2. Edmilson disse:

    Olá João! Obrigado pelas palavras sempre carinhosas.
    E obrigado por acrescentar o glossário com a tradução do gauchês para o português de alguns termos do texto…hehehe!

    Abraços!
    Edmilson

  3. Cassiana disse:

    Já que a terapia é de graça, a culpa é sempre da mãe…agora já sei de onde veio a perfeição na apresentação dos pratos, que como disse o João Candido, é impecável também no tempero.
    Sorte a nossa.

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