35. Ela é feita pra apanhar

05.11.2011

por Edmilson Lacerda

Pergunte a dez mulheres o que elas acham do Chico Buarque e onze vão dizer que ele é lindo, querido e certamente um bom moço. Os olhos azuis certamente têm parte da culpa por esta avaliação.

Tá certo! Ele é realmente um ótimo compositor, fez músicas maravilhosas que se eternizaram. Mas também deu bola fora, ah se deu!

Mas como o povo não tem memória, invariavelmente só recordamos das coisas boas feitas por Chico Buarque. As canções carregadas de preconceito e machismo não chegam a manchar o currículo do bom moço.

Não estão entendendo? Já explico, já explico!

Chico Buarque escreveu uma música chamada Geni e o Zepelim. Para uma geração de Genis foi simplesmente um martírio e não duvido que algumas tenham trocado de nome ou se escondido em casa por anos a fio. Além de afetar algumas mulheres de forma direta, o fato é que a música fazia apologia à violência.

A música descrevia uma mulher de vida um tanto quanto aventureira, que gostava de sexo e tivera muitos parceiros ao longo da vida. O refrão era: “Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!.

Eis que surge um Zepelim armado com centenas de canhões, dirigido por um comandante louco pra explodir a cidade. Entretanto, ele muda de idéia e decide não destruir tudo, mas com uma condição: Geni teria que dormir com ele uma noite.

O povo então passa a gritar: “Vai com ele, vai Geni! Vai com ele, vai Geni! Você pode nos salvar! Você vai nos redimir! Você dá pra qualquer um! Bendita Geni!

A moça então se compadece com tantos pedidos e salva a cidade da destruição. Em troca recebe o antigo esculacho, sem qualquer piedade ou gratidão.

Hoje em dia bater em mulher é politicamente incorreto, causa certa comoção e seguramente o mesmo Chico não gravaria a música novamente. E está certo, o caminho é este mesmo, porque a violência é a vitória da força contra o argumento. Quem não tem competência para argumentar, bate!

Mas será que ao tratarmos do tema da violência estamos colocando num mesmo “pacote” todas as mulheres? Nossa sociedade tem tendência à hipocrisia, ou melhor, o ser humano tem esta tendência. Cria-se campanha para erradicar a fome na Somália ou Etiópia e todo mundo quer ajudar, mas não ajuda o indigente do bairro. Queremos salvar o urso panda, mas não tratamos bem os animais da nossa fauna.

Tem um monte de Geni apanhando a torto e a direito bem pertinho da gente. E nós ainda apoiamos, porque afinal ela dá pra qualquer um, tem que jogar pedra mesmo na maldita. Se você pensa assim, você é o típico cidadão que quer salvar as baleias morando a centenas de quilômetros da praia. Se liga! Colar adesivo em carro não te fará uma pessoa melhor.

O que te fará uma pessoa melhor é tratar a todos com respeito, principalmente aqueles que lhe são próximos. E se é contra a violência, que seja contra a violência de qualquer natureza.

E se acaso encontrares uma versão atualizada da Geni, aproveite para lhe dar flores ao invés de jogar pedras.

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2 respostas para 35. Ela é feita pra apanhar

  1. Luciana disse:

    Caro Edmilson, seu post tem um propósito extremamente louvável, que bom. Mas tem umas coisas que eu queria ponderar. A crítica de uma produção cultural tem que ser vista para além do seu enunciado óbvio, penso eu. Primeiro, esta canção do Chico tem uma evidente conotação de denúncia. Em nenhum momento há a incitação da violência, mas um relato da mesma. Segundo, é interessante saber que Geni é um personagem de uma peça, inclusive não é uma mulher, mas um homossexual. Terceiro: os olhos do Chico são verdes 😉

  2. Edmilson disse:

    Luciana, você por aqui…seja bem vinda!

    A idéia deste texto é trazer o outro lado da história.

    Chico Buarque é o eterno “queridinho” da esquerda intelectualizada, e sempre tem alguém para defender as letras, vinculando-as ao período da ditadura e sempre encontrando uma forma de interpretar pelo lado do protesto. Esta música inclusive foi interpretada desta forma, com uma denúncia “velada” ao regime, com a Geni representando o povo oprimido e o comandante do zepelin o governo militar.

    Por outro lado, o povo brasileiro é composto de grande parcela de iletrados, gente que mal completou o ensino fundamental. Para estes, a letra falava de violência e de preconceito. E é esta a visão que eu trouxe no texto.

    Quanto aos olhos do Chico, há controvérsia até na própria familia, conforme texto abaixo retirado do site: http://www.chicobuarque.com.br/critica/crit_cidade_overdes.htm.

    “Os velhos olhos verdes. Ou azuis? Sem que haja um consenso sobre a real cor de seus olhos, o compositor Chico Buarque admite que seu futuro é a literatura e garante que suas músicas estão cada vez melhores. Aos 54 anos, ironiza a velhice que se aproxima enquanto se prepara para ser avô pela segunda vez.
    De Chico Buarque, todo brasileiro sabe pelo menos uma música. Ou duas. Ou três. Ou um punhado. Sabe também que sua principal marca é a timidez. Depois, obviamente, dos profundos olhos verdes. Ou não seriam azuis? Seu empresário Vinícius França não tem dúvidas. “Os olhos dele são verdes.” Mesma opinião da filha Sílvia Buarque. O cineasta Bruno Fernandes, marido de Sílvia, rebate. “Claro que são azuis.” A ex-mulher Marieta Severo é categórica. “São verdes.” Mais detalhista, a irmã Miúcha fica em cima do muro. “Nem um nem outro. São os dois. Se ele bota uma camisa azul, os olhos ficam azuis.” Para atiçar a polêmica cromática, Miúcha traz à baila uma confusão histórica a respeito do tema. “Quando Chico tinha 17 anos e foi preso, o escrivão, também na dúvida, cravou olhos cor de ardósia.” Chico, claro, mantém a discrição, o enigma e o charme. E vota em branco. “Não sei se é verde ou azul.”

    Abraços!
    Edmilson

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