34. Carta de Ulisses a Penélope

 

28.11.2011

por Edmilson Lacerda

A par da temática desta semana não resisti e criei uma hipotética carta de Ulisses a Penélope. Uma típica carta de um guerreiro contando a sua amada sobre suas aventuras e também escrevendo sobre suas traições. Há que se destacar que ele espera a compreensão de Penélope e espera que ela não tenha lhe sido infiél em todo o período que ele esteve fora. Ou seja, ele utiliza o tempo como desculpa para seus deslizes, mas acredita que sua amada tenha outro tipo de comportamento.

Carta de Ulisses a Penélope

Noites intermináveis, em que o medo era quase palpável.

Sentia gotejar meu elmo feito em couro,

Suor nervoso e impaciente pela espera.

Acariciava o arco e a espada num ritual tranquilizador

e imaginava quantos troianos tombariam pelas minhas mãos.

 

Sinto saudades de Ítaca, minha terra, meu reino

e da possibilidade de escutar o povo.

Minha amanda Penélope, por pouco tempo esteve em meus braços

mas esta minha ânsia por aventura afastou-te de mim.

Compreendas porém minha escolha, afinal corre em tuas veias sangue espartano.

 

Nestes anos de ausência perdi bons companheiros

como os seis que o gigante Poliferno acabou devorando.

Acabamos por furar-lhe o único olho e desta forma escapamos

não sem despertar a ira de seu pai, Poseidon.

Aliás, dois naufrágios foram causados por este Deus irado.

 

Meu retorno a Ítaca após muitos anos de batalha

haveria de ser rápido, pensava erroneamente.

Após longo período em alto mar, eis que uma ilha nos parece a salvação.

Ledo engano minha amada. Lidamos com feitiçaria

e nossos homens foram transformados em porcos por Circe, a feitiçeira.

 

Não me queira mal pelo que lhe contarei, porque não sabes o meu tormento.

Consegui livrar meus companheiros de armas daquela situação constrangedora

e em troca acabei sendo, creio eu, enfeitiçado por Circe.

A sua beleza me confundiu e o ócio, este perverso estado de espírito,

transformou-me em passivo amante por tempo demasiado.

 

Sim, bela Penélope! Já não és a única a ter um fruto do meu sangue.

Telémaco é filho legitimo de um amor sincero, do nosso amor.

Telégono é filho de engano, de feitiço e de falsos sentimentos. Filho de Circe.

Ah, se pudesse voltaria no tempo e após usar as ervas que Hermes me deu de bom grado,

revertendo o encantamento dos meus companheiros, fugiria daquela ilha imediatamente.

 

Convenci-a de meu amor irrestrito por você e Circe capitulou.

Viajei até a terra dos cimérios, terra de Hades.

Tirésias, um cego com poderes de adivinhação haveria de me indicar o caminho de casa.

Lá no reino dos mortos chamei por ele, que falou de você,

falou dos pretendentes a ocupar meu lugar ao seu lado e de sua obstinação em esperar-me.

 

Soube também que Telémaco, nosso filho crescido, procura por mim,

e que Poseidon espera o momento de acabar comigo.

Falei com minha mãe e esperei para encontrar Hércules, Aquiles e outros guerreiros.

Ajoelhei e chorei em frente aos meus homens. Espero um dia te reencontrar

e que ainda percebas em mim o Ulisses que outrora arrebatara seu coração.

 

No meu caminho de volta ainda resisti aos encantamentos das sereias,

nossos navios foram destroçados pela furia de Zeus. Sobrevivi sozinho.

Acordei após dez dias numa ilha chamada Oggia, e descobri-me prisioneiro de uma ninfa.

Calipso era seu nome e me manteve prisioneiro por sete anos.

Sim, Calipso era uma linda ninfa e acabei sucumbindo novamente aos instintos.

 

Não Penélope, não me julgues com demasiado rigor.

Quase vinte anos fora de casa destróem qualquer possibilidade de retidão.

O que me tranquiliza é que tens mais força e determinação que eu e espera-me.

Atena foi tua aliada, pois me retirou daquela situação de aprisionamento,

intercendendo em meu favor junto a Zeus.

 

Neste momento naufraguei pela segunda vez, novamente por ondem de Poseidon.

Minha jangada espatifou-se e consegui nadar até a terra e encontrei Nausicaa,

filha de Alcino, rei dos Feaces. Bela e encantadora Nausicaa.

Algo me diz que Atena apoderou-se do corpo desta mulher no intuíto de me ajudar novamente,

e se assim o for, a confiança me volta as veias e sei que regressarei finalmente a Ítaca.

 

Estou perto, estou muito perto do nosso reencontro.

As marcas do tempo estão por toda parte: no meu corpo e na minha mente.

Mas ei de tomar o meu lugar ao seu lado e Telémaco irá finalmente rever o seu pai.

Chegarei como mendigo e espero que me reconheças nestes trajes humildes.

Só o amor de uma rainha descendente de Esparta acalmará meu coração sofrido.

 

E todos os bardos contarão minha história

E toda a terra saberá do meu amor

E toda a Grécia render-se-a a tua beleza

e Ítaca eternizada ficará.

Uma resposta para 34. Carta de Ulisses a Penélope

  1. Camila Molento disse:

    Uma carta poética muito linda, parece verdade! Gostei!

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