32. De volta para o futuro

14.11.2011

por Edmilson Lacerda

Porto Alegre. Anos 80.

Havia a Crocodillus na 24 de outubro, o Taj Mahal e o Open Mind. Todos eram lugares para dançar. New wave era o ritmo das pistas. Mas eu gostava de lugares pequenos, ambiente insalubre, da penumbra típica e a invisibilidade que eles proporcionavam aos freqüentadores. Banda tocando num volume alto e algumas colunas para que pudesse ficar escorado e tomando uma cerveja, observando.

Assim era o Porto de Elis, um bar de Porto Alegre que muito freqüentei e que entrou para a história da cena cultural da cidade. Assim era também o Bar Ocidente na Avenida Oswaldo Aranha, bairro Bom Fim.

Por falar em Oswaldo e bairro Bom Fim, era lá perto da Universidade Federal que proliferavam bares famosos e a noite era de todas as tribos. Lembro do Escaler que ficava escondido atrás do Luar Luar. Era quase como o lado “b”, o alter ego do Luar. Só tinha maluco. Os doidos saiam do Escaler para assistir a sessão da meia noite no Baltimore. Depois entupiam o Bar do João ou iam para a balada pesada do Ocidente.

Diziam que o Bom Fim era underground, mas eu na verdade nem sabia o que isto significava. Eu gostava era daquele clima sombrio, notívago, com punks e darks se misturando com os bebuns de sempre. Os papos eram transcendentais e a música boa. Aprendi a gostar de rock inglês nesta época. Smiths, Cure, Police, Siouxsie and Banshees faziam minha cabeça e a de muitos jovens.

Em 1984 um amigo me emprestou uma fita cassete de uma banda nova chamada Legião Urbana. Foi paixão imediata e a partir daquele momento passei a ser um fã incondicional de Renato Russo e companhia. As músicas lembravam a sonoridade do Smiths e as letras eram geniais e em português. Descobri com o passar do tempo que eu não era o único fissurado pelos caras e que a banda fazia shows que mais pareciam seitas religiosas. Tive oportunidade de presenciar três shows deles.

O rock nacional explodiu e o Rock in Rio de 1985 elevou as bandas cariocas, paulistas e brasilienses a um outro patamar. Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Ira, Legião Urbana e Ultraje a Rigor tocavam direto em todas as rádios FM.

Por influência de uma rádio nova chamada Ipanema FM, passei a escutar bandas gaúchas como Replicantes, Taranatiriça, De Falla e Garotos da Rua. Com liberdade de programação e um papo absolutamente antenado ela lançou muita banda. Um dos apresentadores da rádio conhecido como Barão produziu o disco Rock Garagem 1 e na seqüência o Rock Garagem 2. O mercado regional bombou. E se é realidade que houve um estouro de bandas de Brasília e Rio de Janeiro no Brasil inteiro, também é verdade que a gurizada do Rio Grande do Sul tinha seus próprios ídolos. Aproveitando o vento favorável, produtores criaram festivais como o Rock Grande do Sul e organizavam shows pelo estado. Muito deste mercado próspero do rock gaúcho até os dias atuais se deve a atuação da Ipanema. Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Papas da Língua, Cidadão Quem, são todos fruto desta abertura das rádios locais às bandas do estado. A Ipanema FM foi a pioneira.

Nesta altura você deve estar se perguntando: “Tá, e daí? Onde é que ele quer chegar?”. O que quero dizer é que moro em Curitiba e conheço muito pouco dos talentos aqui do Paraná.

Sei que há muita coisa boa acontecendo na cidade, porém os talentos locais têm pouco reconhecimento e exposição nas rádios e na TV do Estado. Falta a eles o equivalente a Ipanema FM de Porto Alegre, falta alguém para investir e fazer esta turma ter uma cena regional forte. A Michele é reconhecida hoje porque participou e ganhou um concurso no Domingão do Faustão. Mas daqui a pouco os quinze minutos de fama dela se extinguem e ela volta a ter um público pequeno de quem vai a shows. E é um baita desperdício de potencial e talento.

Torço que esta tendência mude e possa presenciar um cenário promissor para os artistas de Curitiba. O regionalismo gaúcho pode até ser motivo de piada pelo Brasil afora, mas há de convir que em algumas situações ele mereça ser copiado.

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