31. Brilho no olho

07.11.2011

por Edmilson Lacerda

A interação social que as comunidades mais pobres propiciam aos seus moradores é um grande impulsionador para revelar talentos em todas as áreas. Além disto, a ausência de grandes posses e a conseqüente despreocupação com o status quo forja uma personalidade mais tolerante aos riscos e mais preparada para lidar com pressão e o stress.

A diversidade é sempre benéfica para um bom observador. Não estou querendo dizer que todo menino ou menina que mora em grandes condomínios populares ou em vilas vai ter uma vida confortável na fase adulta. Mas a possibilidade de entender o mundo através da ótica de pessoas diferentes dá a eles uma visão mais abrangente do universo das relações humanas. Os mais antenados captam este contexto e carregam este conhecimento para a vida, tornando-se uma pessoa de valor.

Uma outra qualidade que surge neste caldeirão de possibilidades é a criatividade. O menino da vila aprende a conviver com a carência e cria suas brincadeiras a partir do nada. Aprende com o vizinho a construir seu próprio carrinho de rolimã ou a sua pipa. Disputa peladas que mais parecem finais de Copa do Mundo com uma bola de meia de nylon. E não basta ser criativo, precisa ter outra característica bastante comum em vencedores: a competitividade. É obrigado a se diferenciar dos demais para ter um lugar de destaque no seu grupo. Ele pode ser o mais valente, o melhor jogador de bola de gude, o que dribla melhor ou o que se dá melhor com as meninas. Não importa o quê exatamente, mas o fato é que numa grande comunidade ou você é ator principal ou não é nada.

Um exemplo interessante a citar é que no início de carreira tive um supervisor que preferia contratar pessoas pobres. Entre dois candidatos de igual nível de instrução e experiência ele optava pelo mais pobre. Constantemente ele mencionava que enxergava um brilho no olho diferente naqueles que não tiveram a sorte de nascer em berço esplêndido. Dizia que estes profissionais fariam diferença na empresa. De fato, a maioria dos jovens de origem humilde que ele contratou fez história na companhia e se tornaram executivos após alguns anos.

No fundo, o que ele buscava nestas novas contratações? Pessoas com garra, iniciativa e criatividade. Pessoas que saberiam trabalhar em grupo, comprometidas e com vontade de crescer.

Tolerância ao risco também é um traço importante. Quando você não tem nada, você não tem nada a perder. Há uma tendência, equivocada em minha opinião, de achar que aquele que não tem nada a perder e é pobre vai virar bandido. Há exemplos que desmentem de longe esta teoria. O Seu Jorge, por exemplo, nascido em Belford Roxo na Baixada Fluminense, foi borracheiro aos 10 anos de idade e com 20 morou na rua, porque um dos irmãos foi morto numa chacina, e isto acabou desestruturando a sua família. Nunca ouvi uma entrevista dele, nem conheço sua história a fundo, mas certamente este expoente da nossa música aprendeu muito na favela e nas ruas e como tinha talento musical acabou vencendo os limites de sua origem. Ele não tinha nada a perder e acabou por ganhar o jogo da vida.

A inovação e a criatividade desenvolvem-se em ambientes onde a carência e falta são notados com maior intensidade. E carência é uma coisa que todas as vilas têm. Mas é carência de melhor condição de vida e não de brilho no olho. O brilho está lá, pronto para receber uma oportunidade.

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