30. Lições de sedução

31.10.2011

por Edmilson Lacerda

Estou terminando de ler um livro bastante interessante que retrata bem a sociedade italiana do século XVIII. Trata-se das memórias de Giacomo Casanova, o mais famoso amante da literatura mundial. O livro é uma edição de 1945 traduzida diretamente dos originais, o que lhe confere uma legitimidade impressionante.

O tal Casanova descreve sua trajetória na sociedade italiana, com todos os altos e baixos. Ganhou dinheiro, perdeu-o todo pelo menos umas três vezes em jogatina e em libertinagem. Foi encaminhado cedo para a ordem religiosa, abandonou os estudos e a vocação eclesiástica para se tornar aspirante a oficial militar. Aos vinte anos já tinha tanto quilômetro rodado que parecia ter vivido pelo menos meio século. Falava fluentemente o latim e aprendeu o francês por necessidade. A necessidade, diga-se de passagem, tem a ver com tornar-se mais atraente aos olhos de uma Condessa, que falava este idioma. Era um sedutor incorrigível, tendo conquistado muitas mulheres da alta sociedade e iniciado dezenas de jovens púberes nos caminhos do prazer.

O que chama a atenção nesta narrativa é o respeito que este italiano dispensava às mulheres. Acredito piamente que ele tenha amado algumas delas, conforme ele mesmo descreve. Enamorava-se muito facilmente e quando se descobria perdidamente apaixonado, fazia a corte de uma maneira sutil, sendo respeitado e considerado por todas as mulheres um gentilhomem. Não estranhem este termo, que acredito tenha significado idêntico ao termo em inglês gentleman, ou cavalheiro no português contemporâneo. O termo existe, o que não existe mais é o indivíduo.

Para ser um gentilhomem, Casanova premeditava sua abordagem à mulher objeto de adoração. Fazia-se presente, galanteava, era espirituoso de um jeito que a todos agradava. Por esta qualidade não havia quem não lhe desse a palavra. E quando a usava, era de uma sinceridade ímpar. Ao falar de si não se gabava com grandes feitos, antes sim deliciava a todos com a história dos seus infortúnios. Sabia rir de si mesmo. Apesar de sua natureza volátil, colocava-se na posição da mulher amada e como a adivinhar-lhes os desejos mais íntimos, conseguia sempre o seu troféu. Era paciente, mas determinado.

Naquela sociedade a palavra era muito importante e quem tinha o dom da palavra conseguia sobressair-se. A corte era feita de maneira poética e a honradez e os estudos definiam o homem. É claro que o dinheiro e a posição social faziam toda a diferença, mas era um mundo de oportunidades abertas. As mulheres, recatadas, participavam da sedução, ora recusando as indiscrições, ora deixando-se enamorar pelo sujeito.

Não dá para comparar a nossa realidade com a Europa de 300 anos atrás. Regredimos neste aspecto das relações humanas. Aquela cena exibida recentemente na TV de um homem quebrando um braço de uma mulher em um bar é o fim. É barbárie! A conquista atual não tem nada a ver com romantismo. É uma pegação sem palavras, onde apenas a imagem conta. Roubar beijos em danceterias lotadas, agarrar as mulheres que passam e falar diretamente de sexo é de uma falta de civilidade vergonhosa. E não acuso somente os homens, porque as mulheres entraram nesta dança, sujeitando-se a este tipo de ato animal e flertando de forma idêntica. Não há conversa, não há empatia, não há o descobrimento lento e natural.

A abordagem é ansiosa, relâmpago e tem apenas um objetivo: a cama. E quando chegamos a este nível fisiológico é natural que a brutalidade as vezes seja utilizada, afinal é o instinto animal falando mais alto. Machos e fêmeas definindo suas posições à força.

Lastimo por esta geração, na qual eu me incluo, que deixou de prestar atenção nas palavras, na poesia, no carinho e zêlo para se satisfazer com o imediatismo e a saciedade do prazer que lhes devora. Se pudesse escolher gostaria de viver numa sociedade parecida com a do Casanova. O que se fazia entre quatro paredes podia ser parecido com o que acontece hoje em dia, mas os caminhos que levavam a intimidade eram muito mais estimulantes.

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