27. Questão de idade

10.10.2011

por Edmilson Lacerda

Quando criança, eu e meu irmão mais velho moramos um tempo na casa dos nossos avós. A casa era grande, e além dos avós moravam também dois tios solteiros.

Foi um período bacana, principalmente porque nosso avô era uma figura ímpar. Tinha uma inteligência natural para as coisas práticas e apesar de não ser letrado, havia nele uma curiosidade que o fazia, sem sombra de dúvida, um homem sábio. Lembro que ele sempre questionou a veracidade da chegada do homem à lua. Segundo ele era pura propaganda americana e desafiava qualquer um a conseguir provar a ele que de fato o homem empreendera esta viagem espacial.

Penso que ele incutiu em mim um grande espírito crítico, pois me fazia pensar as coisas sob um prisma totalmente diferente.

Mas apesar de toda a aventura que era morar naquela casa, três eventos sempre me metiam certo medo.

Um deles era ouvir o barulho das badaladas de um relógio antigo de parede, muito grande e que se aproveitava do silêncio que pairava após o fim do Jornal Nacional, quando todos estavam recolhidos em seus aposentos. Aquele tic tac ritmado e o barulho que ele fazia a cada hora eram realmente de impressionar o mais cético dos meninos.

O outro evento a me dar nos nervos era o próprio Jornal Nacional, com dois homens de gravata e seus vozeirões. Cid Moreira e Sérgio Chapelin passavam sempre a impressão de que algo muito trágico seria anunciado a qualquer momento. E como o Jornal Nacional era o último programa de TV que os habitantes daquela casa assistiam, me via em apuros e num breu absoluto sem tirar da cabeça aquelas vozes. O recurso de ler um livro para distrair a mente não era permitido, porque o toque de recolher era sério, com a casa mergulhada em escuridão.

Entretanto, a pior desgraceira acontecia quando escutava aquela música da abertura do Fantástico. É que em uma ocasião acabei assistindo uma reportagem sobre crianças desaparecidas ou mortas. Então passei a relacionar o medo que eu tinha de ser seqüestrado ou de morrer à música de abertura do programa.

O tempo passou e agora temos um casal à frente do Jornal Nacional. A Fátima Bernardes com sua boca tortinha e um ar de quem está prestes a rir a qualquer momento só me faz pensar em coisas engraçadas. O Fantástico já não tem aquela música original. O medo de ser seqüestrado passou e o de morrer ainda continua, mas como tenho muitas coisas pra ocupar meu cérebro, este tema também não me vem assim de forma recorrente.

Mas talvez o que mais tenha mudado neste tempo todo é que eu passei a ter o controle. O controle da televisão nas mãos e que me permite trocar o canal quando o programa não me agrada. Posso decidir pela luz acesa ou apagada, e decido também se preciso ou não ler um livro para parar de pensar em um tema que me impressionou.

Então era de fato verdade quando diziam que quando crescesse poderia fazer as coisas do meu jeito. Só que às vezes exagero e sigo demais este preceito, fazendo sempre tudo do meu jeito. O que não é também uma boa política.

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