24. Vaidade Míope

19.09.2011

por Edmilson Lacerda

O contraponto de ideias é sempre rico. O debate aguerrido desperta sentimento e crava uma bandeira profunda na percepção de quem assiste ou participa. Se houver disposição para escutar tanto melhor, porque como diria Raul Seixas “Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

A partir do debate sempre surge algo novo e que pode representar em alguns casos uma convergência entre lados opostos. Trazendo a questão mais para o lado filosófico e lembrando Hegel e sua teoria sobre o que vem a ser dialética, diria que o resultado de um bom debate é a síntese do debate. Isto porque alguém sempre defende uma tese, que normalmente é a ideia dominante e aceita pela maioria, enquanto o outro lado vem com uma proposta nova que se contrapõe a tese. Este contraponto chama-se antítese.

A síntese é o clímax da discussão e sua razão de ser. Se a dialética, segundo os filósofos gregos, é a arte do diálogo, a síntese é o seu objetivo. No meio empresarial a síntese perfeita nas negociações se convencionou chamar de “ganha-ganha”.

Por que estou falando a respeito de contraponto de ideias? Porque considero inusitada a forma como um coordenador de curso de Publicidade participou de uma palestra sobre comunicação e gênero na Universidade Positivo. Visivelmente despreparado para ocupar o espaço que lhe foi destinado no evento, apesar de convidado justamente pela sua experiência em comunicação, deixou de lado a discussão de ideias para apresentar conceitos filosóficos abrangentes demais e que aparentavam certa desconexão com o tema proposto. Parecia que o discurso estava pronto e esperando uma oportunidade para ser utilizado.

Não bastasse esta demonstração de vaidade um tanto quanto míope, o tal coordenador, que é também professor na mesma instituição, sequer conseguiu apresentar convincentemente o que se propusera a expor. Ficou sentado e, pasmem, leu durante trinta minutos a sua “apresentação”. E quando chamado a responder perguntas, sem o seu script, se perdeu e deu respostas despreparadas e incoerentes.

Pegou mal! Havia uma platéia composta de professores, alunos e profissionais da comunicação. Fiquei imaginando o que os alunos mais críticos pensaram do seu coordenador. Sinceramente, se fosse aluno desta universidade e tivesse algum trabalho para apresentar durante este semestre, apresentaria sentado e lendo-o na íntegra. Se um coordenador de curso pode, aluno também pode.

Desta forma não houve realmente debate. Foi uma palestra competentemente apresentada pela Rachel Moreno, esta sim convincente e preparada, com uma linha de raciocínio muito clara. A abordagem utilizada foi uma antítese do que temos hoje em relação à imagem da mulher na mídia e na sociedade e padrões irreais de beleza, questionando o papel exercido pela mulher na publicidade e no jornalismo.

A universidade ficou devendo um debatedor à altura das credenciais da Rachel, para que ficasse completa a dialética do tema, e quem sabe tivéssemos presenciado o surgimento de propostas convergentes entre discussão de gênero e comunicação, para que os estudantes ali presentes pudessem ter um lastro de apoio quando o tema fosse abordado em suas futuras atividades profissionais.

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