19. A fé, a razão e as mulheres

15.08.2011

por Edmilson Lacerda

Não gosto de injustiça de nenhuma espécie. O fato de ser canhoto contribui muito para esta minha posição. As coisas absurdas que o mundo criou para tratar os destros como bons e os canhotos como pessoas malignas até hoje me incomodam. O preconceito está no nosso dia a dia, impregnado na nossa cultura e na nossa linguagem. Um exemplo é a palavra destreza, que significa ter habilidade, agilidade, aptidão. E deriva de destro, ou seja, direito. Aliás, ser direito é ser correto. Por outro lado, sinistro é sinônimo de mão esquerda, funesto, desgraça.

Mas ser canhoto não é nada comparado com a forma como as mulheres foram tratadas ao longo da história. Claro que em alguns períodos e em determinadas civilizações, a coisa foi um pouco menos escancarada e brutal. Todavia, pode-se dizer que estes foram momentos muito breves.

Durante boa parte da Idade Média ou Idade das Trevas, como é conhecida hoje em dia, as mulheres eram consideradas impuras por natureza. Uma forma de isolar as que se rebelavam contra a sua condição era enviá-las aos conventos. Um critério bastante comum para a admissão era a quantidade de terras e riqueza que a mulher possuía, porque uma vez feito os votos, tudo que lhe pertencia era doado à igreja.

Houve momentos em que algumas mulheres decidiam por adentrar nos conventos por vontade própria, para fugir à submissão do pai ou ao compromisso de casamento com homens que não amavam. Nesta época, as filhas ainda virgens de camponeses eram trocadas por mercadorias e as meninas pertencentes às famílias nobres eram prometidas em casamento desde pequenas, como forma de assegurar poder e riquezas através de alianças estratégicas.

Entretanto, a pior coisa que poderia acontecer para uma mulher era a acusação de bruxaria. Isto porque os padres assumiram o controle medicinal e insistiam em processos de cura onde a prece era a principal receita. Se uma mulher detivesse saberes práticos que afrontassem o “conhecimento” dos padres, insistindo em prescrever medicamentos e infusões de ervas, por exemplo, acabavam na fogueira, condenadas sumariamente como bruxas. Não se poderia admitir que as mulheres, inferiores ao homem, afrontassem o poder divino, afinal os padres eram os escolhidos divinos para operar milagres e atuar em nome de Deus.

Após a Revolução Francesa e com a visão iluminista do mundo, o antropocentrismo ganha força. Deus já não é a explicação para todos os fenômenos e há uma ruptura entre fé e a razão. Religião e ciência trilham caminhos separados. Queimar as mulheres neste período não seria adequado, porque não havia como provar cientificamente que estavam possuídas por espíritos malignos.

Mas eis que os homens criam novos meios de subjugar o sexo oposto. Ironicamente, a ciência, que pressupõe neutralidade em seus métodos, passa a criar teorias confirmando diferenças entre os sexos. As mulheres, agora com confirmação científica, são ditas inferiores aos homens e consideradas uma variedade humana especializada na reprodução. Novamente elas foram tolhidas de seus direitos e, à luz de uma razão masculina, quem sem rebelava era encaminhada a psiquiatras, que afirmavam que sua incapacidade era biológica para realizar certas tarefas e ter alguns direitos, como o estudo e o trabalho remunerado. Imediatamente eram diagnosticadas como doentes patológicas. Sabe-se lá que tipo de tratamento lhes era aplicado. Parece coisa de centenas de anos atrás, mas este tipo de ocorrência tem pouco mais de cem anos.

O tempo passou e a ciência continua com o mesmo perfil excludente, criando métodos nada neutros para manter as mulheres em seu lugar de submissão e segundo plano. É claro que em pleno século XXI e com muita luta algumas mulheres estão se destacando e ganhando até prêmio Nobel. Mas são progressos lentos e pontuais. Passa impressão de prêmio de consolação, um arranjo ardiloso para não despertar suspeitas.

Teocentrismo ou Antropocentrismo? Fé ou razão? Seguramente o caminho da razão é o mais correto. Mas há de ser a verdadeira razão, na qual haja real compreensão científica, livre de manipulações e preconceitos. A competência deve estar acima de todas as coisas e quem a possuir, independente se homem ou mulher, que se estabeleça.

Anúncios

Uma resposta para 19. A fé, a razão e as mulheres

  1. vidasempauta disse:

    Palavras interessantes, mas para mim seguramente o caminho da razão não é melhor que o caminho da fé. Somente a fé nos responde tudo aquilo que precisamos e somente ela nos dá esperança de eternidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s