18. Miscigenado sim, com muito orgulho!

08.08.2011

por Edmilson Lacerda

Um maluco mata mais de setenta pessoas na Noruega e ainda utiliza o exemplo do nosso país para justificar seu ato, afirmando que nossa condição de subdesenvolvimento advém de um modelo de bastardização contínua, principalmente em função da mistura de raças. A miscigenação brasileira, segundo o assassino, é a causa dos problemas que enfrentamos no Brasil.

Estranho é que nossa imprensa ouviu calada a barbaridade. A repercussão foi pequena, não houve grandes manifestações e os ancoras nos jornais diários também deram pouco destaque a afirmação.

Há uma explicação para a omissão. É porque em parte concordamos com o argumento. As grandes redes de televisão são do Rio de Janeiro e São Paulo. Nestes estados, assim como no sul, ainda impera a crença de que nordestino é preguiçoso e o preconceito contra os negros é uma realidade.

A elite brasileira calou. E quem cala consente.

Alguém lembra da letra da música do Belchior que dizia “Eu sou apenas um rapaz, latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”? Somos latino-americanos sim, mas todo mundo logo pontua que é neto de italiano, filho de espanhol, bisneto de alemão. Algum parentesco do nordeste ou algum negro na família? Convém esconder bem pra evitar qualquer mal entendido.

E por falar em parentesco do nordeste, cheguei certa vez em um cliente na Lapa, cidade histórica do Paraná, e me apresentei. O cliente olhou meu cartão de visitas, identificou o sobrenome Lacerda, e disparou: “Você é da família dos Lacerda, mas deve ser do lado dos pretos”. A princípio não entendi, mas soube depois que havia uma família Lacerda tradicional na Lapa, com duas ramificações: uma de pele mais clara e a outra de pele mais escura, os tais “pretos” que eu fora rapidamente enquadrado.

Sou gaúcho, filho de mãe gaúcha e pai nordestino. Minha avó materna era cigana e meu avô filho de portugueses. Do lado paterno sei pouco das origens, mas a família se formou em Cajazeiras, sertão da Paraíba. Tenho a pele morena, herdada do meu pai nordestino e também de minha avó cigana. Mas para o cliente da Lapa, eu era preto.

Então é infelizmente assim que pensam os “brancos” dos estados mais ao sul do Brasil. Para os paulistas os baianos são cansados e preguiçosos. Os gaúchos dão vivas ao clima frio típico dos pampas, que impediu uma invasão nordestina. Escolas de classe média alta em cidades como Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, ainda tem predominância de crianças de pele clara. E o discurso que sempre imperou, nos bastidores das famílias tradicionais sulistas, é o “trabalhamos duro por aqui para sustentar o povo lá de cima”.

Ninguém menciona que São Paulo foi erguida com mão de obra nordestina. Aqueles arranha-céus têm suor nordestino e negro. E esquecem também que por muito tempo o controle político foi exercido por mineiros e paulistas, que se revezaram no poder no que se convencionou chamar de política café com leite, uma alusão ao poderio dos barões do café em São Paulo e os produtores de leite de Minas Gerais. Os gaúchos, pela sua natureza beligerante, também se impuseram no cenário nacional por diversas ocasiões. Então, o que pode ter ocorrido ao longo das décadas e séculos é uma espoliação das riquezas do norte e nordeste, transferidas para os estados do sudeste e sul. Uma versão interna do que ocorreu com o Brasil colônia e Portugal.

Enfim, a miscigenação brasileira é fato. Somos um tanto índios, africanos, asiáticos e europeus. E temos inúmeros problemas sociais, políticos e econômicos. Mas não há nada que comprove que uma coisa influenciou a outra. Há sim é que se compreender o Brasil com base no contexto em que ele está inserido, que é a América Latina, e nos pilares que fundamentaram nossa história.

O Brasil é plural em sua cultura e identidade e este pluralismo é que dá um toque todo especial ao nosso jeito de ser. Cresceremos como nação quando deixarmos de pensar em termos de raça ou cor ou estado brasileiro. O sergipano, por exemplo, é tão brasileiro quanto o mineiro, o carioca ou o paranaense.

Por estes dias vi duas senhorinhas andando de braços dados em Curitiba. Uma tinha a pele clara e os cabelos bem branquinhos e a outra possuía a tez escura com o cabelo bem preto. Fiquei a imaginar que tipo de ligação elas possuíam, mas isto na verdade não importava. O que importava era o respeito e admiração que pareciam possuir uma pela outra.

O assassino norueguês não entende nada de Brasil. Aliás, ele não entende nada de humanidade. E se tem gente que ainda concorda com este tipo de absurdo, fica o recado: as relações humanas são muito mais complexas do que simplesmente a cor da pele. As senhoras curitibanas são um exemplo real a não me deixar mentir.

2 respostas para 18. Miscigenado sim, com muito orgulho!

  1. Que texto maravilhoso! Amei mesmo… “O assassino norueguês não entende nada de Brasil. Aliás, ele não entende nada de humanidade.” Parabéns para o nosso colunista, cada vez melhor!

  2. marcos antonio barbosa disse:

    Na verdade entendo que não se deve, ou não se deveria, levar em consideração qualquer manifestação do sujeito em questão, tendo em vista sua condição mental doentia. Abraços.

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