17. Yes I do! (Sim, eu falo!)

01.08.2011

por Edmilson Lacerda

A frota brasileira de táxis já foi composta basicamente de fuscas. E não faz muito tempo, talvez uns 25 anos. Para quem não viveu esta época, pense num fusca duas portas, apenas com o banco do motorista e o banco inteiriço de trás. O banco da frente era retirado para que os passageiros pudessem entrar no veículo e se acomodar. Quando a família era grande, alguns taxistas permitiam que as crianças ficassem sentadas no chão, no espaço vazio ao lado do motorista.

Cinto de segurança ninguém usava.

Com o crescimento da violência nas grandes cidades, muitos veículos foram equipados com cabines internas blindadas, que separava o motorista dos passageiros e os protegia contra assaltos. A comunicação era feita através de pequenos furos no vidro, e o dinheiro da corrida era entregue por uma gaveta. Ao entrar no táxi eu sempre lembrava do filme “O homem da bolha de plástico”, em que o personagem sofria de uma doença e não podia ter contato com outras pessoas, permanecendo dentro de uma bolha.

Também recordo de um negócio chamado “puta merda”. Era uma alça de plástico na lateral do carro, acima da cabeça, e que servia para o indivíduo se segurar em caso de solavanco ou por conta de uma curva mais fechada. Antes de se segurar firmemente ao acessório, o camarada gritava: Puta merda! O xingamento deu nome a peça. Como o banco traseiro era inteiriço, se o carro estava muito veloz ao fazer a curva, todo mundo era jogado para o mesmo lado. Acho até que muitos casais se beijaram pela primeira vez dentro de um táxi nesta época, justamente por conta destas curvas em que o “puta merda” era esquecido propositadamente.

Além dos aspectos diretamente relacionados ao carro, os taxistas também eram figuras singulares e dignos de nota.

Um tipo bem comum eram os proprietários aposentados, senhores que enxergaram no táxi uma possibilidade de ganhar dinheiro e continuar ativos na terceira idade. Eram simpáticos, pacientes, dirigiram suavemente e o táxi era uma extensão das suas casas: possuíam tapetes, cortininhas e às vezes até televisão portátil. Guiavam atentos à rua, para evitar os buracos e acidentes.

Uma outra categoria era dos playboys do táxi. Normalmente com pouca instrução, trabalhavam como taxistas à noite, porque seus patrões dirigiam o carro durante o dia. Os garotões eram ansiosos, gostavam de falar de suas histórias de conquistas, normalmente acontecidas em serviço e com clientes. Paravam seus veículos na saída das festas, com o som bem alto. Ao pegar um táxi com algum destes garotos, a corrida era sempre com muita emoção. Eles dirigiam imprudentemente e muitos bebiam durante o trabalho.

Já os mal-humorados existiam em profusão. Fumavam um cigarro atrás do outro. Eram grossos e impacientes, deixando o clima tenso. Dirigiam como se quisessem bater no carro, mudando as marchas abruptamente, soltando a embreagem aos solavancos. Reclamavam da vida, do governo, do guarda de trânsito, do semáforo e se o passageiro falasse qualquer coisa poderia sobrar pra ele também. O melhor a fazer era se manter calado, e rezar para chegar logo ao destino.

Ser taxista não era profissão, era na verdade subemprego. E preocupação com o cliente passageiro nem passava na cabeça da grande maioria deles.

O tempo passou e não sei se a situação melhorou. Ainda ando de táxi quando viajo para alguma cidade diferente ou outro país. E nestas oportunidades sempre presto atenção ao motorista, comparando-o as experiências anteriores. Uma coisa que chama muito a atenção em diversos países na Europa, por exemplo, é que os taxistas falam inglês. Eles precisam fazer curso do idioma para poder melhor atender aos clientes estrangeiros. Certa, vez, um taxista em Atenas me deu uma pequena explanação sobre o país, o povo grego, condições econômicas e até sobre as curiosidades do idioma grego. Tudo em inglês.

Um taxista na Filadélfia ao descobrir que eu era brasileiro, passou a perguntar muito sobre o Brasil, porque segundo ele o fluxo de brasileiros por lá aumentara e precisava melhorar os conhecimentos sobre o povo brasileiro e sua cultura. Tinha inclusive programado passar férias no Brasil, mas perdeu a passagem porque sua mulher morria de medo de avião e mudou de ideia as vésperas da viagem. Grande figura!

Não quero dizer que tudo funciona perfeitamente e que todos os taxistas lá fora são uns cavalheiros. Mas me parece que em alguns países eles estão um passo a frente dos nossos. Isto preocupa, porque sediaremos uma Olimpíada e Copa do Mundo em breve, e cada vez mais turistas escolherão o Brasil como destino.

Indiscutivelmente a frota brasileira de táxis melhorou. Os fuscas de antigamente fazem parte da história. Mas infelizmente não vejo os mesmos avanços nos motoristas. A maioria não está preparada para atender sequer a demanda interna com qualidade, o que esperar do atendimento ao turista que não fala o português?

Será que os sindicatos dos taxistas espalhados pelo Brasil buscam melhorar o padrão destes profissionais? Curso de atendimento ao cliente e noções básicas do inglês deveriam ser recomendados e até obrigatórios para taxistas de aeroporto, por exemplo. E antes que alguém pense que isto é supérfluo, afirmo que é uma questão relevante do ponto de vista de lucratividade. Um taxista do aeroporto de Congonhas recentemente confidenciou-me que estava perdendo várias oportunidades boas de corridas porque não falava inglês.

Preparem-se profissionais de transporte, preparem-se taxistas. E estejam prontos para soltar um orgulhoso “Yes, I do” quando um gringo subitamente olhar para você e perguntar: “Do you speak English?”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s