14. Porta Aberta

Por Edmilson Lacerda

11.07.2011

Não há como negar a importância dos livros na vida das pessoas. Quem lê tem maior capacidade de concentração, vocabulário mais rico, articula melhor as idéias. Ler é desbravar o mundo, é se conectar a mente de escritores de épocas e lugares diferentes. Alguns desses escritores deixam marcas por uma vida inteira.

E ao falar de escritores lembrei de um menino que conheci há muito tempo.

Ele era muito observador e de tanto ver sua mãe desmanchando-se em choro ao ler fotonovelas em quadrinhos preto e branco, começou a ler aquelas histórias. Eram textos recheados de situações do cotidiano, traições, desencontros amorosos, paixões.

Quase que em seqüência iniciou-se no mundo do faroeste. Pequenos livros de bolso que seu pai tinha na cabeceira da cama fizeram sua cabeça por um bom tempo.

A prática tornou a leitura rápida e ele necessitava de mais livros do que seu pai conseguia comprar. Passou a freqüentar uma banca de revistas próxima de casa: levava alguns livros de bolso e trocava por outros. Dois livros usados valiam um novo.

Não tardou a descobrir os gibis. Foi amor à primeira vista. O menino ficou simplesmente encantado com o universo dos quadrinhos. O inconveniente dos gibis é que a leitura acabava num piscar de olhos.

Aos nove anos leu Ben-Hur. Primeiro livro longo, sem figuras. Não entendeu bulhufas. A lição foi que havia um tempo certo para cada livro. Antecipar o encontro muitas vezes significava não extrair o máximo de possibilidades e conhecimentos da experiência de leitura.

Um dia ao acompanhar a mãe numa visita a uma amiga, olhou para a estante da sala e viu um verdadeiro tesouro exposto. Livros e mais livros, de diversos gêneros e autores. Não se conteve e pegou um. Quis o destino que fosse um livro da Agatha Christie e o título era promissor: Os elefantes não esquecem. Começou a ler e só se deu conta que precisava ir embora quando a mãe o sacudiu, tirando-o da espécie de transe que se encontrava. A tal amiga, percebendo o interesse do menino, permitiu que ele levasse o livro, dizendo que ele poderia emprestar qualquer livro desde que trouxesse sempre o anterior de volta.

O menino passou a ler mais do que nunca. Provavelmente leu a coleção inteira da Agatha Christie, escritora britânica que escreveu quase 100 livros, e é a escritora mais publicada de todos os tempos, perdendo apenas para a Bíblia e para Shakespeare. Seu principal personagem era um detetive chamado Hercule Poirot, belga, apesar de alguns acreditarem que sua origem era francesa, 1,60cm de altura, com um bigode extravagante e absurdamente metódico no seu processo investigativo, desvendando todos os crimes que investigava.

O grande trunfo de Agatha era construir a trama de modo a deixar o leitor especular livremente e formular suas próprias teorias a respeito do enigma, mantendo o suspense até o final, quando tudo era finalmente desvendado. Este recurso, aliás, é utilizado até hoje nos romances policiais e também nas novelas brasileiras. Mas Agatha foi pioneira, criadora e inigualável em sua técnica.

O menino cresceu, tendo os livros como seus grandes companheiros. Leu clássicos da literatura nacional e mundial, leu tanto livro que se fossem empilhados não caberiam numa única sala. Ou a melhor analogia seria que os livros que ele leu poderiam construir uma ponte ininterrupta a ligar a terra de norte a sul.

Estes tempos o encontrei numa livraria admirando a capa reeditada de um livro da Agatha Christie: Assassinato no Expresso Oriente.  O que se passava na sua cabeça? Talvez estivesse a pensar o quanto seria bacana se encontrar novamente com aquele baixinho de bigode e de fala estranha, o tal Poirot.  Após tantos anos e tantos livros, a autora ainda o atrai, pensei. Ele ainda a reverencia, ainda percebe sua relevância.

Sem dúvida Agatha Christie, a Rainha do Crime, é importante para a literatura moderna. Mas de fato para o menino ela representou uma porta aberta, que jamais se fechou. A porta da curiosidade.

E talvez neste momento, na privacidade de sua casa, o adulto que se tornou esteja resgatando o menino que ele foi um dia, deliciando-se com algum livro da escritora preferida, buscando juntar as pistas de um crime antes que o detetive baixinho o desvende.

 

 

 

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3 respostas para 14. Porta Aberta

  1. Zuleica Chagas disse:

    Edmilson, estou adorando tua coluna. Hoje lendo este relato sobre Agatha Christie voltei ao tempo, pois Os Elefantes não esquecem foi o livro que mais me marcou. Deve ser por isso que gosto muito de elefantes.Li muitos e muitos livros e ainda leio bastante. Doei a uma Associação por não ter mais lugar para guardá-los. Realmente a leitura é algo muito delicioso, pena que muitas pessoas ainda não descobriram isto. Até a próxima semana. Abraço. Zuleica

  2. Edmilson disse:

    Olá Zuleica! Fico muito feliz que estejas gostando dos textos. Sei que és uma grande leitora, então tens parâmetro para saber o que é bom ou ruim.
    Continue firme na leitura dos livros, porque são grandes companheiros, te ensinam tudo e não te cobram nada em troca, apenas alguns dias ou horas de atenção. Discordo quando dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem. O livro é disparado o nosso melhor amigo.
    E faça comentários sobre a coluna sempre que quiser, porque assim posso pleitear um aumento de salário para a Giulia e a Suelen…hehehehe!

    Abraços!
    Edmilson

  3. Jussara Figueiro Thomé disse:

    OI, fiquei sabendo deste blog através da Zuleica, achei muito interessante.
    Também já li muito Agatha Christie, tinha uma coleção de livros desta escritora que acabei doando para um colégio lá em Esteio, pois o mesmo necessitava de livros para sua biblioteca. Também li muitos livros de Sidnei Sheldon (não sei se a escrita esta correta).
    Atualmente sempre leio, quando posso.
    Gostei desta tua coluna, porque admiro as pessoas que tem o dom da escrita, e tu escreves muito bem, continue assim.
    Abraços!
    Jussara

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