13. Dever de casa

Por Edmilson Lacerda
04.07.2011 

Adolescente é um ser estranho, meio adulto meio criança, com seus códigos de linguagem e seus trejeitos característicos. Cada poro desta figura transpira transgressão as regras e sexualidade, não necessariamente nesta ordem. Terreno fértil para fazer muita besteira. Os jovens se acham imortais, a morte é uma inimiga distante e o tempo é infinito. Neste universo paralelo onde se situa esta criatura, criança não entra e os adultos em sua maioria são muito chatos para serem admitidos. O mundo gira ao redor do umbigo juvenil.

Quando se é jovem o mundo se descortina novo à frente, repleto de caminhos fascinantes e alternativos. Cumpre ao adolescente questionar os valores e desafiar o sistema. Por trás da rebeldia há criatividade em sua forma mais concentrada.

Desconfio que grande parte das coisas relevantes e de impacto profundo do ponto de vista de transformação social, seja na música, nas artes, no campo cientifico, etc. tenha sido criado ou pelo menos idealizado por pessoas antes de sua fase adulta. Os jovens são criativos e além de tudo não tem compromisso com o passado. Isaac Newton baseou seus estudos sobre movimentos dos corpos pelas descobertas que fez na adolescência, e ainda afirmava que o auge de sua criatividade foi quando tinha 23 anos.

Para refrear esta sede por mudanças os adultos têm uma arma letal: a escola. A escola é um espaço criado por adultos para socializar e domesticar crianças, tornando-as adolescentes controlados. Elas entram livres e cheias de ideias e só saem do sistema quando já não conseguem pensar diferente. Saem das escolas prontas para formar um batalhão de adultos medíocres que em sua grande maioria trabalharão por toda a vida sem destaque, sem brilho, fazendo parte de uma engrenagem social nociva e que perpetua um sistema de castas, mantendo a divisão do trabalho que favorece sempre as minorias.

É por estas e outras que o jovem tem uma relação de amor e ódio com a escola. Ele ama as possibilidades de interação que a instituição lhe proporciona, suprindo a necessidade de pertencer que lhe é tão peculiar. Mas do ponto de vista ideológico, a escola representa tudo que ele não crê. Claro que há exceções, mas a regra é esta.

O movimento estudantil é uma forma de canalizar em atitudes pró-ativas esta insatisfação. As escolas e universidades têm verdadeira ojeriza pelos líderes entre os estudantes. Isto porque a capacidade de mobilização e de liderança pode representar um risco à ordem. E tudo que o sistema não deseja é ruptura. Esta postura ainda é um ranço do tempo da ditadura militar. Durante este período foram aniquilados os movimentos sociais e políticos dos estudantes. Houve censura ao ensino, extinção de matérias que incentivavam o pensamento crítico, como a Filosofia, e em seu lugar entraram matérias que exaltavam a nação. Organização Social e Política do Brasil, a famosa OSPB, era uma destas matérias ufanistas. Os reitores se subordinavam diretamente ao Presidente da República. A educação era compreendida pelos militares como um importante mecanismo de transmissão de ideologia, assunto de Estado. Através da educação se propagava uma ideologia dominante de uma determinada classe social nas quais os militares compartilhavam e pertenciam. Os livros transmitiam uma realidade bem diferente daquela vivida pelos alunos. Qualquer semelhança com o modelo atual de ensino é pura coincidência.

Apesar das sanções, o movimento estudantil sobreviveu e foi muito importante na luta contra a ditadura militar no Brasil. Jovens lutaram clandestinamente e obstinadamente pela liberdade de expressão e por um governo democrático. Alguns morreram lutando. Porém com o advento da democracia, os jovens se desarticularam, voltando a aparecer fortemente no governo Collor, desfilando suas caras pintadas nas ruas e influenciando decisivamente a opinião pública até a deflagração do processo de impeachment do então presidente em exercício.

Muita coisa mudou no país, mas não resta dúvida que precisamos da força revolucionária juvenil para continuar evoluindo como nação. Nossa democracia é nova, ainda temos muito que avançar.  Há muita lama nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Transparência, agilidade e credibilidade são palavras que ainda não passam de discurso para aqueles que governam o Brasil. As tão faladas reformas trabalhista, tributária e judiciária dependem de vontade política e de cobrança social. E esta cobrança não virá dos adultos cordatos e servis adaptados ao sistema. Virá das entranhas das escolas e universidades, virá do futuro, virá do jovem. Mas para mudar o mundo o jovem deve se organizar dentro das instituições de ensino e começar a cobrar mudanças estruturais no campo da educação, pois o pilar de uma nação é sua educação. Sócrates já dizia: “Deixe quem desejaria mudar o mundo mudar primeiro a si mesmo”.

 

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