10. Polícia para quem precisa de polícia

13.06.2011

Por Edmilson Lacerda

Nossa sociedade tem uma cisma com a polícia de uma maneira geral. Talvez um pouco menos com as forças armadas, já que estas dificilmente exercem seu poder opressivo sobre o povo. Creio que nem entre os diversos agrupamentos policiais haja entendimento, porque a polícia civil, por exemplo, não gosta de jeito nenhum da brigada militar. Polícia fardada versus polícia a paisana, este é apenas um exemplo de discórdia.  E suspeito que haja também alguma rixa entre a marinha, o exército e a aeronáutica.

Dizem que os primeiros portugueses a chegar ao Brasil com a missão de colonizar estas terras eram criminosos condenados em seu país. Certamente que não chegaram por opção, mas mandados pela coroa portuguesa. Como o lixo que se esconde embaixo do tapete, a escória foi enviada para além mar.

Então está em nosso DNA não ser muito chegado à autoridade. E não adianta dizer que não tem nada a ver com isto, que seus antepassados eram alemães, espanhóis ou italianos. Somos todos da mesma laia, somos descendentes de renegados, de ladrões e até de assassinos. E por isto mesmo toleramos com tanta naturalidade os escândalos políticos e a roubalheira generalizada que envenena nossas instituições públicas, fazendo com que o custo Brasil seja exorbitante. Os políticos são antes de tudo cidadãos brasileiros, gente nossa. Sarney? Gente nossa! Palocci? Gente nossa! Maluf rouba, mas faz. O clientelismo do governo Lula é supernatural, porque a troca de favores faz parte do processo democrático. Sic!

Enriquecimento ilícito é a realização de uma das nossas fantasias mais íntimas. Não acreditamos em trabalho duro e honesto para se chegar lá. Acreditamos é no atalho. Mega sena, lotomania, loteria federal dão certo porque é jogatina, tentativa de trapacear o destino. Brasileiro cai tanto em golpe, porque não deixa de escutar uma proposta tentadora para ganhar dinheiro fácil. Você que se diz certinho, se for pego andando a 120km/h numa estrada que o limite é 80km fará o quê? Vai aceitar a multa ou deixará o cafezinho do policial pago? E se você fosse o policial, aceitaria a oferta?

O poder de polícia é a faculdade que o governo tem de conter os abusos individuais, ou em outras palavras é a proteção aos interesses públicos. Sendo assim, o brasileiro será sempre contra. Brasileiro que é brasileiro não está nem aí para os interesses coletivos. O negócio é se dar bem e ponto. Alguém já ouviu falar da Lei de Gerson? Sim, negócio é levar vantagem mesmo. E atire a primeira pedra quem achar que estou falando besteira.

É claro que ser policial honesto no Brasil é uma contradição em termos. O camarada é filho desta sociedade maluca e num piscar de olhos vira autoridade. Só que esta autoridade acaba se tornando um problema. Ele mora na periferia, ganha mal, arrisca a vida, não é respeitado pela população que ele deveria defender e no decorrer do seu trabalho é exposto a inúmeras situações de possibilidade de ganho fácil. Como diria o Capitão Nascimento: “Vai dar merda!”.

Na nossa cultura é muito mais legal ser bandido e não ter regra nenhuma a obedecer. Não ter farda, nem horário. Ser respeitado e temido.

Tal qual amor e ódio, a linha que separa o policial e o bandido é tênue. E o é exatamente porque as tentações são grandes, o salário é pequeno e via de regra a corporação que o arregimentou não o preparou psicologicamente para exercer a função. 

O fenômeno de bilheteria do filme Tropa de Elite, e o surgimento de um anti-herói como o Capitão Nascimento, um cara incorruptível e com valores éticos e morais acima de qualquer suspeita, felizmente vem apontar para um novo caminho possível. Pode ser que o brasileiro comum tenha cansado desta história de impunidade, de querer levar vantagem. Pode ser que tenha cansado de acreditar que a riqueza é para os espertos, e que honesto seja sinônimo de otário.

Espero que o filme tenha também despertado entre os agentes policiais deste país uma vontade de sentir orgulho da sua profissão, que os faça entender sua missão, que mostre através de seus atos que merece mais respeito da população e salários condizentes com a sua importância.

Sonho um dia em que o batalhão inteiro de uma polícia de Brasília entre no Congresso Nacional com um mandado de prisão, após uma bem elaborada investigação, e prenda todo e qualquer político envolvido em atos lesivos ao patrimônio público. Afinal, não é para isto que a polícia serve, para proteger os interesses públicos? O patrimônio público é de interesse geral da nação.

Desperto deste sonho utópico ao lembrar as palavras de um policial: “O senhor anda vendo muito filme policial americano”. Pode ser, mas já é possível ver este tipo de filme criado aqui, sem legenda ou dublagem. Das telas para as ruas é questão de tempo.  

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Uma resposta para 10. Polícia para quem precisa de polícia

  1. La Chiki disse:

    Veja como temos um grande problema CULTURAL (e nao soh genetico): na escola somos “educad@s” a ser melhor que os outros. O conhecimento vem de cima pra baixo, hierarquicamente, como se @ “mestre” tivesse todo poder sobre determinado assunto, cabendo @s alun@s a obrigatoriedade em aprender somente naquele formato, autoritario, excludente, enfim, reprodutor da sociedade capitalista na qual @s alunos deveram se encaixar nos setores de patroes ou emprgados (sim, pois ser autonomo nao eh mostrado como algo que se deva orgulhar…). A partir do momento em que apenas conseguindo tal nota vc sera considerad@ capaz, temos ai a brecha para se exercer a corrupcao; eh claro, ninguem quer “ficar pra tras”, nao importa o que isso signifique. E se eu “tenho” de ser sempre melhor que outros, eh perfeitamente compreensivel o porque de as policias terem suas richas, assim como @s alunos, @s mestres, @s “representantes”, os conjuntos musicais… Afinal, mais uma vez, somos educad@s pensar: quem tem poder tem tudo.

    (Mas eh claro, isso nao tem nada a ver com meus descendentes europeus que foram marginalizados por um sistema politico de autarquias, bem parecido com este que servimos inclusive, e que acabaram caindo no “crime” (sem roubaram tao bem e nem matar tanto como a Coroa Portuguesa e Espanhola no entanto. Gracas a Deus!). Isso tambem nao tem nada a ver com meus descendentes indigenas e africanos que soh queriam viver sua vida integrada com a Mae Terra…)

    A educacao eh fundamental; porem nesses moldes de sistema educacional a escola acaba se tornando uma ameaca.

    Se entao, aprendemos a delegar poder sobre nossa educacao aos ditos “mestres”, se delegamos poder sobre nossas vidas a pessoas que nao conhecemos e se quer vivem coisas parecidas com o que vivemos, sejam eles de qual partido forem, mesmo sabendo que o Estado em si eh uma maquina que sempre serviu a classe dominante, que nao faz mais do que dar migalhas a classe trabahadora, explorada, que realmente constroi tudo aquilo que soh quem tem o pode$ vai utilizar… Como entao vamos esperar que a instituicao militar – repare que nao trato de individuos e sim de uma institucao – , que serve a maquina que serve aos donos da maquina, que eh burocratica, hierarquica, autoritaria, que age pela coersao de quem jah eh oprimid@,que deveria proteger a populacao mas tem em primeiro lugar como chefe os grandes senhores (no masculino mesmo!), venha proteger a pessoas que buscam a verdade, que luta para desmascarar esse sistema sanguinario feito por uma bancada de mafiosos?!
    A seguranca eh fundamental; porem nesses moldes de sistema capitalista, a institicao militar acaba se tornando uma ameaca a quem nao aguenta mais se calar.

    Eh hora de nos desapegarmo-nos do que nos foi ensinado ate agora. Se queremos igualdade, justica, paz, entao estamos falando de revolucao. E isso implica a necessidade de um serio posicionamento nosso, derivado de construtivos conflitos como este que acabamos de nos deparar. Estamos em epoca de guerra em todos os setores de nossas vidas; o nosso maior inimigo sao nossas couracas culturais. Eh hora de rever nossos conceitos e praticas. O que realmente queremos ser: a classe media, enburguesada, conservador@s? Ou o POVO revolucionario?

    Saude a tod@s!

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