Estupro não é piada

11.05.2011

por Dilcélia Queiroz

O apresentador do CQC Rafinha Bastos, já conhecido por piadas comuns e preconceituosas, ataca agora com sua versão machista. Cansado de reproduzir chavões sobre gordos, carecas, deficientes, judeus e pagodeiros, o humorista achou que seria “engraçado” fazer apologia ao estupro. “Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade”, esse é parte do texto apresentado por Rafinha em seu stand up.

O estupro é uma das formas mais graves de violência de gênero. Não é apenas a agressão física que incomoda, mas sim a opressão psicológica, a violação do corpo, do íntimo, a submissão e a humilhação que deixam marcas profundas nas vítimas. A piada, que para Rafinha Bastos parecia inovadora, é tão velha quanto nossa civilização. A ideia machista que nos ensina “não seja estuprada” em vez de “não estupre”, está enraizada em nossa sociedade e contribui para que a responsabilidade pela violência seja atribuída à vítima e não ao agressor. Justificar um estupro pelo tamanho da saia que a mulher usava ou pela natureza do homem, incapaz de controlar seus “instintos”, é cruel. Nada justifica ou miniminiza a violência sexual, independente da situação da mulher, ela continua sendo vítima da agressão.

Outra ideia comum é de que existem mulheres “estupráveis”. Em alguns casos o estupro é encarado como cortesia. É o que defende Rafinha Bastos: mulheres fora do padrão de beleza, solteironas ou lésbicas devem encarar a violência sexual como um favor.

Segundo dados do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para a América Latina, 33% das mulheres entre 16 e 49 anos de idade já sofreram algum tipo de abuso sexual, e a cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil. O estudo ainda revela que 70% dos casos ocorrem dentro de casa, onde os agressores são membros da família da vítima. Apesar dos números revelarem o tamanho do problema, o assunto não é debatido e mulheres ainda são silenciadas em meio a chacotas.

O humor inteligente deve questionar os padrões estabelecidos pela sociedade, trazer a tona a hipocrisia e os preconceitos existentes. Deve incitar a reflexão a cerca de temas importantes. Mas Rafinha Bastos, através do humor ofensivo, somente perpetua as ideias de uma sociedade conservadora. Insultar minorias, difundir preconceitos é o que a sociedade faz há milhares de anos. Não há nada de novo ou irreverente, somente a pobreza de conteúdo e a chatice das piadas velhas.

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